Com cada vez mais frequência dou comigo a pensar no Tio Martinho ou na Avó Leonor. Sempre tive por eles um carinho especial. Conheci-os velhos e é essa imagem que guardo com saudade. Velhos, sem estudos, com medo de andar de carro, com pavor de medicamentos. Velhos íntegros, simples, honestos, genuínos. Partiram há muitos anos, donos de mais de oito décadas de vida cada um. Da Avó, lembro-me sempre da roupa preta que o luto lhe impôs bem cedo. Do Tio, recordo-me das tardes a jogar à bola. Tinha ele já os seus setenta anos e eu menos de dez. Não era futebol, nem sequer era 'à matança'. Era dar pontapés na bola, para cá e para lá. Chamávamos àquilo jogar "de cante a cante" no cantos do seu quintal. Dos dois, guardo gratas memórias de infância misturadas com algumas mensagens que me incomodavam e que contrariava sempre que podia. Diziam eles, naquelas histórias intermináveis que se permitem aos velhos, que "naquele tempo é que era duro", "naquele tempo é que havia fominha", "naquele tempo é que havia pobreza". Naquele tempo era como eles se referiam aos seus tempos de meninice em que os brinquedos tinham formas de foices e enxadas. Em que os lanches eram 'azeda' apanhada à mão das paredes ou favas a meio crescimento. Em que os doces mais doces eram as ameixas ou as uvas verdes. Falavam do tempo dos antigos. Dos mais antigos do que eles. Dos que comiam raízes de árvores, dos que passavam fome, dos que tinham o estômago colado às costas. E pintavam esses quadros negros com frases e ditos dos antigos ainda mais antigos do que eles. Ouvia-os mas não os levava muito a sério. Acreditava nas dificuldades que me contavam mas dava-lhes um desconto. E mudava de conversa quando, sobretudo o Tio Martinho, vinha com profecias cruéis. Quando se 'deitava a adivinhar' dificuldades que me pareciam inimagináveis. Quando dizia que um dia - "Deus queira que não" - os tempos iam voltar para trás. Que os campos, que nos anos 80 começavam a embrenhar de silvado e urtigas, voltariam a ser cultivados porque não haveria trabalho para todos, porque faltaria o comer na mesa. Eram cruéis essas imagens. Como eram cruéis. Como são cruéis essas imagens. O tempo passou. Os anos correram, a Avó e o Tio morreram, as oportunidades cresceram, as famílias parece que enriqueceram e aquele discurso negativista foi sendo contrariado. Podia lá ser, pensava eu anos mais tarde. Podia lá voltar a fome, a dureza, a carestia da vida, as dificuldades. Já adulto mantive essa recusa durante muitos anos. Sobretudo no início da década passada, quando a Madeira era um estaleiro de obras, quando tínhamos milhares de imigrantes e quando centenas deles eram licenciados nos seus países e por cá apenas serventes dos nossos pedreiros com a quarta classe. O tempo voltou a passar. Os anos correram, os números de imigrantes desceram, as famílias empobreceram e aquela imagem de riqueza esfumou-se num instante. Anos depois, as pessoas voltaram a emigrar, as dificuldades estão a aumentar, há gente a desesperar. É verdade que temos bons computadores, carros potentes, telemóveis aos pontapés, roupas e brinquedos e jogos e inutilidades a dar com um pau, que o conforto é incomparavelmente melhor. Mas não é menos verdade que cada vez mais falta dinheiro, que já falta comida decente em muitas casas, que em outras tantas falta comida, seja ela qual for. Ainda não chegámos ao tempo de comer 'azeda', nem raízes, mas sinto que começámos a fechar o ciclo e que rapidamente nos aproximamos "daquele tempo", dos pensamentos e dos ditos dos antigos. Com alguma frequência dou comigo a pensar no Tio Martinho ou na Avó Leonor. Apesar do pessimismo destas linhas continuo a contrariar aqueles quadros negros, mas sou forçado a admitir que se alguém tivesse dado ouvidos aos que viveram "naquele tempo", talvez este tempo fosse outro. Mas, tal como eu, a maioria não deu ouvidos aos mais antigos. Vivemos tempos de euforia e com os dinheiros europeus que deveriam ser para a nossa formação, optámos, ou fomos levados a optar, por comprar 'bolas' novas e continuámos a jogar "de cante a cante". E agora olhamos para o tempo que passou com uma irreprimível nostalgia, com a ideia fixa de que, afinal, antes é que era bom. Agora que os problemas são mais do que muitos, que o número de desempregados aumenta todos os dias, que a sociedade volta a falar de pobreza, que o Governo finalmente admite que há fome... agora faz sentido dizer que já vivemos dias melhores, que "naquele tempo", o nosso tempo, é que era bom. Conheço alguém que jura que o melhor está por vir. Acreditemos!