Pedro Melvill de Araújo Monsieur le Président Je vous fais une lettre Que vous lirez peut-être Si vous avez le temps Je viens de recevoir Mes papiers militaires Pour partir à la guerre Avant mercredi soir Monsieur le Président Je ne veux pas la faire Je ne suis pas sur terre Pour tuer des pauvres gens C'est pas pour vous fâcher Il faut que je vous dise Ma décision est prise Je m'en vais déserter Estes são os primeiros versos de uma canção de Boris Vian, escrita em 1954, contra a entrada da França numa guerra com a Argélia, que lutava pela sua independência, e obviamente proibida no Portugal pré-Abril de 1974. Os tempos são outros e a guerra já não é militar. É sim uma feroz e "sangrenta" guerra social, em que os soldados somos todos nós que sofremos na pele os desmandos de anos de políticas erradas e ridículas, e com repercussões em todos os níveis da sociedade. Todos sofremos com esta guerra absurda, que não pedimos, que não queremos, mas que somos obrigados a vivê-la. É uma guerra sem quartel, em que somos todos prisioneiros de um sistema que nos agrilhoa e nos mantém à beira de um precipício, com consequências sociais inimagináveis. Os políticos actuais já nos puseram portugueses, e teimam em nos pôr gregos. Só resta uma solução - a deserção. Desertar desta guerra implacável, ser objector de consciência deste sistema injusto de capitalismo selvagem, em que só o lucro interessa e subjuga todos os interesses de um colectivo que foi levado a um consumismo exagerado, sem ter oportunidade de agir de outra forma. É tempo de dizer basta, de forçar uma saída deste campo de prisioneiros em que fomos metidos à força, e de querer que seja estabelecido um tratado de paz social duradoura, com políticos com capacidade de poderem liderar povos por caminhos novos de prosperidade, políticos com coragem de assumir novos rumos e romperem com práticas que se provaram ineficientes nas últimas décadas. Não os políticos dos últimos 40 anos, porque todos têm culpas e não têm desculpas. Não queremos que os versos seguintes da canção de Boris Vian se tornem em realidade: Depuis que je suis né J'ai vu mourir mon père J'ai vu partir mes frères Et pleurer mes enfants Ma mère a tant souffert Elle est dedans sa tombe Et se moque des bombes Et se moque des vers Quand j'étais prisonnier On m'a volé ma femme On m'a volé mon âme Et tout mon cher passé Demain de bon matin Je fermerai ma porte Au nez des années mortes J'irai sur les chemins