Há anos que não corava de vergonha. É que isto vai-se ganhando calo com o tempo. A estudante que costumava incomodar-se com a chicana que sempre foi feita em volta da sua naturalidade, por colegas mais mordazes, para quem a Madeira é um líder em cuecas na capa dos jornais, aprendeu a discernir a Região de onde é, e se orgulha, e as suas gentes dos seres que a têm desgovernado. E a cidadã aprendeu a não baixar os olhos perante os comentários depreciativos, tivessem eles razão de ser ou não.

Até esta semana, em que o parlamento regional voltou a dar mais uma prova de ser a maior obscenidade democrática do país. Se dúvidas houvesse, ficaram dissipadas. A maioria, escudada na legitimidade de ter sido eleita, já desrespeitou tudo. A oposição, dia sim, dia sim senhor; a democracia; a liberdade de imprensa; a representantivade. O regimento é alterado à revelia dos partidos, porque o PSD, legitimado pelo voto, acha que pode mandar e desmandar na casa da democracia (?) e não se esforça para tentar consensos em matérias basilares, porque não precisa. Têm maioria. O presidente do parlamento regional, segunda figura do Estado na Região, não tem pudor em obedecer ao verborreico líder parlamentar laranja. E quando o faz fere não só a sua própria dignidade, como a de todos o que elegeram. Mas têm maioria e não é preciso mais nada.

Quando a oposição quer debater alhos, a maioria – escudadinha na legitimidade democrática -responde com bugalhos. Os todo poderosos eleitos anos a fio não argumentam sobre as matérias com seriedade. Aliás, não debatem de todo, porque são donos e senhores de uma maioria parlamentar. Acham por isso que não têm de discutir, preferem entreter o povo com política rasteira. A oposição pergunta onde é que se gastou o dinheiro, como é que se vai pagar, qual é o plano? A maioria cospe ódios e lembra que os outros partidos, desgraçados que nunca conseguiram ganhar eleições, não têm nada com isso, que ninguém os escolheu para governar. E quando as restantes bancadas insistem, ariscas, passa-se à violência verbal tantas vezes na iminência de passar a física. O Governo não vai ao parlamento.

E depois chocam-se e é o ‘ai-que del-rei’ com as coelhices que surgem no poente democrático, imagine-se, a gritar os mesmos argumentos. ‘Estamos aqui protegidos pelo voto’, esbracejam os deputados arrastados pelos funcionários para o exterior. Não deixa de ser irónico vê-los criticar as suas próprias criações e incomodarem-se com a imagem beslicada que a Região passa para o exterior.

Mas quando pensava que já tinha visto de tudo no antro, a maioria original consegue surpreender ao abandonar a sala na hora de um voto de pesar pelo euroedeputado Miguel Portas. Os que ficaram não tiveram coragem para dizer basta. Lamento pelas pessoas de bem que reconheço na bancada do poder. Nem a dignidade do ser humano sobrevive, mesmo na morte, a esta maioria que quer, pode e manda. Tantas vezes mal e sem a humildade de o reconhecer.

Tiveram a dádiva do voto, da maioria, e deitam-na na lama.

Se dúvidas houvesse, o parlamento regional deu mais uma prova que a democracia não é infalível e pode ser também obscena. E perante isto só se pode baixar os olhos de vergonha.

P.S. Os escribas do regime andam enervados. Já cheira a fim de festa e os ratos não sabem se saltam do barco, se ficam à espera dos últimos foguetes. Então, de cabeça perdida, atacam vilmente os que fazem o seu trabalho. Puxam da cartilha da deontologia (seria cómico se não fosse trágico) para tentar condicionar os que vivem ao sabor da liberdade. Lamento, senhores escribas, o DIÁRIO continuará, no Funchal e em Lisboa e onde quer que seja, mesmo em Bruxelas, a ter acesso a documentos – sobretudo quando eles são públicos, porque os profissionais que cá estão, fazem o que lhes compete, sem amarras, nem preconceitos. E os comentários continuarão a ser escritos, não em notícias como cobardemente os tremelicantes acusam, mas no espaço próprio que é este. Doa a quem doer. E ao contrário das encomendas pedidas e pagas aos escribas do outro lado da rua, aqui as opiniões são livres, sólidas como as amizades, de lavra própria e, pasme-se, não custam nada ao contribuinte.