Depois de uma vida de trabalho a reforma deixou de lhe poder garantir o sustento. Movido pela raiva que a injustiça faz gerar, pelo desespero de quem se recusa a ter que viver dos caixotes de lixo e pela vertigem de uma crise que lança diariamente pessoas na miséria Dimitris imolou-se pelo fogo e é já um símbolo de um país que não se conforma com a dita inevitabilidade de uma austeridade que em nome de resolver problemas agrava-os e enche os bolsos de uns quantos que vivem da especulação o financeira. A Grécia vai de novo para eleições porque o povo grego acredita que há valores acima da economia pura e dura e porque esta só tem sentido quando está ao serviço das pessoas e das sociedades. Os líderes das instituições que compõem a troika fazem avisos/ameaças aos gregos, eles que são um povo forjado entre a guerra e a paz e a necessidade profunda de compreender o homem e o seu mundo. Foram eles que ensinaram o Ocidente a pensar e a cultura europeia nunca seria o que é sem a Grécia. A capacidade de abstração de raciocínio, o desenvolvimento da lógica, o conhecimento nas suas variadas vertentes, científica, matemática, filosófica e espiritual, juntamente com a herança romana da organização da administração pública e militar, do desenvolvimento urbano, das estruturas políticas bem como a tradição religiosa judaico-cristã, ao que se deve acrescentar as origens gregas do regime democrático constituem as bases da chamada Civilização Ocidental. Não estamos a falar de um povo que nasceu como estado no Século XIX como é o caso da Alemanha e tudo o que trouxe à Europa foi destruição e mais destruição e cuja recente reunificação foi paga por todos os europeus. Os povos do Sul de que os germânicos tanto gostam de desdizer são os verdadeiros construtores da Europa. Em jeito de pincelada diria que aos gregos se deve a democracia, aos povos da Itália grandes movimentos culturais como o Renascimento e aos portugueses e espanhóis bem pode agradecer a Europa ter-lhe aberto as portas do mundo inteiro e ainda foram os franceses que com os seus ideais revolucionários permitiram a configuram cultural, social e política que a Europa tem hoje. Os povos latinos e do sul da europa pouco ou nada devem à Alemanha e aos sues satélites políticos. Tudo indica que das novas eleições sairão vencedores os partidos que se opõem aos planos de resgate da troika e que defendem se necessário a saída do país do Euro. Os gregos estão dispostos a pagar o preço por quererem seguir o seu próprio caminho já que os senhores que mandam na Europa se esqueceram que o principio fundamental da construção europeia é a solidariedade com o fim último de manter neste velho continente a Paz. Mas se a miopia política reina entre alguns povos do centro de norte da Europa também a cobardia política é apanágio da maior parte dos estados a União porque simplesmente se calam perante a tradicional arrogância germânica que não é só apanágio dos alemães. O que seria a Alemanha e a Europa se não tivesse havido um plano americano a seguir à 2ª Guerra Mundial em que os Estados Unidos concederam à Europa 5% do seu Produto Interno Bruto para a sua reconstrução? Esse plano não apostou em austeridade mas investiu no desenvolvimento e consequentemente no emprego. A Europa não consegue fazer algo de semelhante para si mesma? Provavelmente os gregos irão dar uma lição aos povos europeus e provavelmente essa será a grande força que o novo presidente francês poderá ter para tentar inverte os ventos que sopram de Berlim e que fomentam o aparecimento de movimentos de extrema direita xenófobos e racistas que nada de bom podem trazer ao mundo. Tal como jovem tunisino não se imolou em vão e a sua morte está a dar muito fruto no mundo árabe também Dimitris, o reformado grego que se imolou em Atenas não terá morrido em vão.

Paulo Santos