Do percurso do actual primeiro-ministro de Portugal registo dois momentos – um deles bem recente – entre os múltiplos episódios em que apetece ‘espancá-lo’, descarregando as mágoas por este país continuamente em crise e que não dá o mínimo sinal de sair desta cepa torta. Antes de mais, ‘partidarites’ mesquinhas à parte, devo declarar que aprecio o estilo frontal e realista de Pedro Passos Coelho, uma personalidade que nunca imaginei vir a ter alguma relevância política num país com pouca tolerância para quem opta pelo realismo. Centro-me, agora, nos tais dois momentos, que originaram o duplo desmoronamento ‘do Carmo e da Trindade’, num caso e noutro consubstanciado no público e generalizado fuzilamento do primeiro-ministro, porque aparentemente os portugueses continuam a dizer o que querem, mas sem margem para ouvirem o que não querem. Há uns meses, de regresso de duas visitas oficiais a Angola e Brasil, Pedro Passos Coelho entendeu dar público conhecimento das duas realidades que pôde comprovar e que sofreram evoluções muito positivas nos últimos anos, em contra-ciclo com a Europa outrora estável e imperturbável. Constatou o primeiro-ministro que, quer em Angola, quer no Brasil, emergem novas oportunidades de trabalho, sobretudo para falantes da Língua Portuguesa, em especial quem estivesse capacitado para o Ensino. Na plenitude das suas competências e responsabilidades, Pedro Passos Coelho informou a generalidade dos portugueses sobre tão importantes dados, dirigindo-se em particular à classe dos novos docentes, também flagelada pela precariedade do emprego. Não ouvi nenhum apelo à emigração em massa, registei a oportuna sinalização de oportunidades de trabalho, ainda para mais especializado e em princípio bem pago, não para professores a meio ou no final de carreira, mas para quem reúne condições para arriscar uma nova e promissora experiência, nada comparável ao dramático êxodo migratório de décadas não muito distantes. Passaram-se uns meses e o primeiro-ministro, outra vez na plenitude das suas competências e responsabilidades, alertou os desempregados para a oportunidade que a sua situação pode representar. “Uma situação a vencer e não a estigmatizar”, especificou, instando os desempregados a abandonarem o tradicional fado da lamúria e a aproveitarem para “mudarem de vida”, aproveitando os apoios do Estado. As reacções a um caso e a outro foram muito semelhantes. O primeiro-ministro foi ‘metralhado’ pelos opinadores profissionais dos partidos, induzindo em erro de apreciação uma população que só quer saber das coisas pela rama. Para todos os efeitos, Pedro Passos Coelho quer que os professores portugueses emigrem e defende que estar no desemprego é bom. Ponto final. E isso não se diz, claro. Os portugueses gostam de se enganar. No primeiro caso, os professores – incluindo aqueles que enveredaram pela profissão apenas porque falharam as tentativas para fazer outras coisas – preferiam que o primeiro-ministro lhes anunciasse uns destacamentos para bibliotecas e clubes, mais a garantia vitalícia de salários pagos a tempo e horas. No caso mais recente, sobre o galopante desemprego, Pedro Passos Coelho deveria apontar o dedo a um inimigo exterior – a sr.ª Merkel, por exemplo – e acusar outros, obviamente incógnitos, da incompetência de nos trazerem até aqui, neste estado. Na Madeira, por exemplo, é assim que se faz: gostamos de bater palmas só a quem acusa a ‘troyka’ e chama obscenidades aos incompetentes... do outro lado do mar, claro! Isso de pôr o ‘dedo na ferida’ ou falar claro de coisas claras, mesmo que antipáticas ou dolorosas, é mesquinhice de invejosos. Viva a ilusão!