Enquanto tomo o meu pequeno-almoço, o Diário de Noticias da Região lá me vai dando à boa maneira "inglesa", calculada e enxuta, notícias do meu 'País'. Se é verdade que as últimas cenas vividas na Assembleia Legislativa da Madeira ainda me conseguem tirar do sério, passo logo à frente pois não há razão que entenda o que se passa naquele absurdo Reino da Dinamarca. Quem insulta … é protegido. Quem é insultado … é perseguido. Quem preside a tudo isto … ora preside e castiga os desmandos da oposição, ora não preside e ignora os desmandos da maioria! Na casa da Democracia bem paga por todos nós, as cenas lamentáveis e as atitudes bizarras, são geridas com dois pesos e duas medidas. Não sei se quando a Dr.ª Ferreira Leite falou em suspender a Democracia, não estaria a pensar nesta estranha Assembleia! Mas foi a notícia de um jantar importante e com direito a fotografia colorida, que me chamou a atenção. Há sempre jantares importantes na nossa vida mas neste caso, havia mais vida para além daquele jantar! Bem sei que com um jantar se fecha um bom negócio, se agradece um favor, ou se retribui um afeto. Com um jantar reunimos a família dispersa, juntamos amigos próximos e aproximamos conhecidos distantes. Com um jantar se desenha uma imagem, se projeta uma sombra ou se aconchega uma pequena vaidade. Com um jantar trocamos velhas e gastas fidelidades por novas e saudáveis cumplicidades. Com um jantar se protege a dignidade das pessoas ou apenas se alimenta uma utopia! Quem nunca esteve presente num jantar destes? A importância de um jantar estratégico, terá inspirado Stanley Kramer quando em finais dos anos sessenta realizou um interessante filme - cujo título dá o nome a esta crónica - e onde pela voz da criada negra Tillie e tendo como cenário um jantar meticulosamente armadilhado, diz: " …. direitos cívicos é uma coisa. Mas isto é bem diferente!" É bem verdade Tillie, mais do que os direitos cívicos, o que muitas vezes está em causa, é uma sociedade receosa de qualquer mudança e enredada numa teia de conversas feitas nos adros das Igrejas à saída da Santa Missa. Uma sociedade que teima em não entender que para além dos direitos cívicos que parecem proteger todos, há gente mais próxima do poder que usa e abusa desses direitos enquanto outros, descentrados do poder e por isso mais frágeis, não têm possibilidade de 'comprar' as malhas largas da justiça. No filme de Stanley Kramer, era a cor da pele que separava os bons dos maus ou abria e fechava as portas do sucesso. No filme da realidade que se vive há muito em cada esquina desta terra, é a cor do partido que separa os bons dos maus e abre ou fecha as portas do futuro de cada um. Mas como nos filmes de Agatha Christie onde todos são suspeitos, também agora no partido que há muito nos governa, começa a haver suspeitos de primeira, dissidentes de segunda e traidores de terceira. Qualquer jantar que tenha no seu menu uma genuína e honesta vontade de ultrapassar este decadente fim de ciclo, terá certamente cada vez mais gente à volta da mesa, mesmo sabendo que há sempre alguém a espreitar pelo buraco da fechadura. Mas se quem estiver a espreitar fica feliz e contente porque afinal nem cem lá vão estar, é melhor que não durma sossegado! Há mais de dois mil anos, houve um jantar que mudou para sempre este mundo em que vivemos. Nesse jantar, eram apenas doze à volta do seu Mestre. Só doze …… contando com Judas Iscariotes!
Manuel de Brito