Nas últimas semanas, as principais academias do País - Lisboa, Porto e Coimbra -, fizeram as suas festas de finalistas. As 'Queimas' marcam o fim do percurso universitário, o início da saudade de uma camaradagem que deixa marcas para sempre, mas também a passagem à fase profissional da vida. Ou pelo menos a esperança de entrar no mercado de trabalho.

Por tudo isso, era desejável que a saudação do primeiro-ministro aos jovens licenciados fosse outra. Pedro Passos Coelho, do cimo da sua sabedoria, construída sabe-se lá com base em quê, disse: "Estar desempregado não pode ser um sinal negativo. Tem de representar também uma oportunidade para mudar de vida".

Mais uma grande frase para incluir nas memórias, mas que não deve ter qualquer significado para mais de 15% da população activa portuguesa que vai estar desempregada, no final deste ano. Muito menos para os jovens que procuram um primeiro emprego, sejam licenciados, com formação média ou menos que isso. Para eles, a questão não será mudar de vida, mas ter uma vida.

Pedro Passos Coelho também não falou para os desempregados mais velhos, com mais de 45 anos, alguns com 50 e tais, que têm muito poucas probabilidades de deixar essa situação. Mudar de vida, neste caso, é tentar sobreviver.

O primeiro-ministro fala bem, tem boa colocação de voz, fruto da sua condição de barítono de canto lírico, mas sabe pouco da vida. Muito pouco, mesmo. Procurar trabalho, a sério, nunca procurou. Foi político profissional, primeiro na 'jota' e depois na Assembleia e quando terminou uma licenciatura tardia entrou directo para a administração de uma empresa de Ângelo Correia. O trabalho mais duro deve ter sido, mesmo, nas aulas de canto e a única candidatura a emprego que apresentou... foi a primeiro-ministro.

Por isso, por muito que se tente compreender a intenção de uma frase daquelas, que até pode ter sido proferida para animar os desempregados, este foi mais um episódio desastrado de quem deveria pensar três vezes antes de abrir a boca.

O mundo não é o quadro neo-liberal que Passos Coelho viu exposto num qualquer seminário de economistas falhados. É real, duro, e tem gente dentro. Essa mesma gente que tanta confusão faz aos políticos como o nosso primeiro-ministro.

Post Scriptum: Sarkozy perdeu, Merkel também... e Passos já não se sente nada bem.