Ouve-se e lê-se quase todos os dias na imprensa regional uma espécie de jogo de 'tira e põe' no partido que governa a Região com vista à sucessão dos seus actuais dirigentes. Como se a solução governativa da Região (autarquias incluídas) se operasse apenas no quadro da sucessão de figuras do mesmo partido, mesmo que essa tenha sido a prática dos últimos 30 anos. Numa visão democrática do sistema de representação parlamentar tenho dificuldade em aceitar a lógica que tudo se passa no interior de uma família política e que a oposição, nas suas diferentes matizes ideológicas, não tem uma palavra a dizer nem um poder a conquistar, mais tarde ou mais cedo. Não é essa a lógica da democracia e como tal deveria haver mais pudor e respeito na linguagem utilizada do género "fulano designa o seu delfim ou sucessor" como se de um dado adquirido se tratasse. Mesmo que a prática das últimas décadas a isso possa involuntariamente conduzir, a vivência democrática e os acontecimentos que vêm afectando o poder instalado, podem, na actual conjuntura, ao contrário, fazer surgir surpresas que podem alterar o espectro político-partidário. Pelo que, indicar publicamente sucessores ou delfins, para além de ser pouco ético, releva de uma visão dinástica do poder que só se explica pelo hábito excessivo e continuado da governação. Ainda que, se confrontado, ninguém responsável aceitará a acusação de ter ou defender atitudes 'dinásticas' não é menos verdade que se comporta como tal ao ignorar o seu opositor e ao agir como se o poder que exerce fosse eterno. Nem as poucas monarquias constitucionais existentes procedem hoje assim porque mais expostas ao controle público (cf. o recente exemplo do rei de Espanha) e depositando nos governos democraticamente eleitos a responsabilidade da governação e da condução dos destinos das suas 'monarquias'. Será que, contra a corrente, pretendemos adoptar a regra da sucessão das monarquias na renovação da governação da Região?

Nuno Jardim Fernandes, Gestor