Confesso que nutro um fraquinho pelo trabalho admirável que os mastins, ao serviço de experientes pastores, desenvolvem para que nenhuma cabeça de gado se perca do rebanho. Eles latem, ora à direita, ora à esquerda do animal tresmalhado até o trazerem de volta ao redil. Gratos, os pastores, do mais profundo da sua humana ruralidade, dedicam a estes animais grande desvelo. Não descuidam a sua tigela e, dentro da frugalidade da vida que têm, garantem-lhes a alimentação e a protecção nas intempéries. Em ambientes menos carenciados outros mastins assumem também nobres funções. Eles assinalam, ladrando, a presença de qualquer intruso no espaço que lhes ensinaram, com risco de vida, a defender. A família que, confiante, lhes entrega a sua segurança ao ouvi-los ladrar, inquieta, vai de imediato averiguar a causa do desassossego do bicho. A paciência que eles têm com as crianças participando, alegremente, em tudo que é brincadeira é outro factor que os recomenda no convívio com os humanos. Ninguém contesta este binómio cão Homem. Ele tem séculos e satisfaz na plenitude as duas partes. O Homem, dotado de racionalidade que o coloca no topo da Criação, é a parte que impõe as regras de convivência e o irracional adapta-se-lhes. Fideliza os seus comportamentos para com o dono sem se aperceber do grau de dependência em que vive. Todos conhecemos histórias de cães que não sobreviveram à morte do dono. Alimentar-se é coisa que o animal já não consegue faltando-lhe aquele "amigo" a quem se dedicara. Parecendo fazer tábua rasa dos seus dotes de inteligência, em termos comportamentais, alguns seres humanos, desmerecem o Criador. Explico melhor. Alguns comportamentos humanos que, por vezes, se prolongam por largos anos, e vão desde receber umas vitualhas que lhes caem, directamente, da mesa orçamental para o prato das lentilhas, um negócio que se concretiza, um emprego que se garante etc… levam a que, erradamente, se fale de fidelidade por parte dos beneficiários dessas benesses. É errado pensar-se que estas pessoas, pura e simplesmente, perderam a sua mais nobre característica humana: a sua inteligência. Engana-se quem assim pensar! A capacidade de raciocinar não deixou de existir. Foi, intencionalmente, escondida. Numa lógica de protecção de interesses pessoais é bem mais rentável acertar o comportamento pela fidelidade canina do que pela lealdade Humana. Recordo-me que, na minha juventude, nome frequentemente atribuído a cão era: fiel. Nunca conheci nenhum chamado leal. Fiel executa ordem, mecanicamente, salivando já a pensar na recompensa. Leal, por assentar na capacidade de raciocinar, alerta para a eventual borrada que possa vir, pois, pensa. As relações entre humanos, ao longo da História, são férteis em perversões destas. Havendo dependências hierárquicas, matreiramente, quais raposas, pouco ou nada se importando com os juízos de valor, menos abonatórios, para com os seus comportamentos, vindos da colectividade, aceitam a imagem de mastins cumprindo, caninamente, "as ordens". A ilusão criada pela submissão onde tudo é, servilmente, aceite, como se fossem verdadeiros mastins, cessa aos primeiros sintomas de que as vitualhas já não caem da mesa, abastecida pelos impostos, na mesma quantidade e qualidade. Sempre assim foi e será, enquanto o mundo for mundo! Às vezes custa encarar de frente esta triste realidade sobretudo quando o espanto provém de quem mais devia estar preparado para a "traição". É que não há traição nenhuma. Há, apenas, Seres Humanos. Uns que abdicam, enquanto lhes der jeito, de valiosas faculdades próprias trocando-as por prebendas e, outros que se mantêm, permanentemente, na posição vertical, própria do Homem. Roma, génese da civilização ocidental, pela boca de um desiludido Júlio César, exprimia bem a minha ideia ao dizer: até tu, meu filho…. PS: Passaram 90 dias sobre a prosa do alemão Klauss Friedrich no JM a zurzir a Srª Merkel e a elogiar o Sr. Pres. do GR. Nunca mais escreveu! Pessoa amiga, conhecedora dos meandros dos jornais, garante que ele está a preparar a visita da Chanceler, virá com ela. Há 80 anos, o então chanceler, tê-lo-ia enviado para a frente Russa. Nos nossos dias, noutras paragens, mexer-lhe-iam nas suas fontes de rendimento. É um sortudo o nosso homem.
Gaudêncio Figueira