“Então aquilo na tua terra está bem pior do que se imagina”. A frase de um amigo numa conversa de horas antes martelava-me o pensamento naquela tarde de trânsito no regresso a casa. O meu interlocutor tinha chegado a essa conclusão depois de conversar com um empresário madeirense, a quem contratou para um trabalho que exigia o sub-contrato de outros serviços. Em suma, o primeiro foi pago pela totalidade do trabalho, os fornecedores contratados é que ainda estão a arder, porque o intermediário não pagou e terá ficado com esse dinheiro para regularizar a sua própria situação financeira. Desculpou-se com a situação de debilidade nas contas,acusando o Governo Regional de não pagar o que deve.
Mais uma história que faz da Madeira a bomba relógio que todos nós conhecemos, sentimos o seu tiquetaque diário, mas fechamos os olhos, como se de uma questão de fé se tratasse. Nesta fase, revolviam-se-me as entranhas a pensar no que diz o Documento de Estratégia Orçamental sobre a Região. No papel com a política do Governo de Passos Coelho até 2016, a Região aparece como um dos grandes riscos para o aumento do défice orçamental e dívida pública. Ora, a situação é periclitante, mas quando alguém ousa questionar sobre o que se está a fazer para contrariar este cenário de abismo iminente, é logo catalogado como inimigo da Madeira e dos madeirenses, quais abutres alimentados de gestões danosas e de resultados catastróficos. Prefere-se confundir os números e garantir que está tudo a correr lindamente.
Neste momento, a náusea apoderou-se de mim, confesso. Até que, no semáforo que me obrigou a parar, aparece um jovem com um cartaz a pedir dinheiro. “É para as propinas, também pode pagar com um sorriso”, li. E sorri de imediato. Dei-lhe o contributo financeiro que podia, na esperança de fazer um bocadinho por aquele jovem de sonhos coarctados peloa crise de um país desgovernado.
Esqueço-me do estudante. Volta o tiquetaque do assombro, até que vejo uma parede ‘grafitada’ com a seguinte inscrição. “Não somos nada sem amor” e pensei nesta verdade de La Palisse, mas que não é brincadeira de criança. A frase transporta-me para um artigo de Miguel Esteves Cardoso lido nessa mesma manhã, sobre a situação da sua mulher, que luta contra um cancro no cérebro. “Só estou bem, quando tenho a sorte de ouvi-la e a vê-la e a vivê-la”, escreveu de coração aberto. Eu, estremeci. “Escrever sobre ela é a coisa mais fácil que faço: é uma preguiça e um prazer, como se conseguisse enganar quem me lê. É virar as costas ao mundo, que vai tão mal”.
O artigo e a imagem na parede levaram-me a uma epifania: Todos viramos as costas ao mundo feio e negro e nos concentramos nos mundos que nos importam, que são as pessoas que amamos: Filhos, pais, cônjuges, irmãos, amigos. Ainda bem que assim é. Temos todos um bocadinho de Miguel Esteves Cardoso, por cujo amor o país torce. A maior parte de nós só não o transmite de forma tão clara e despida.
Chego a casa, entretanto, de braços abertos para o meu Mundo. Mas de novo o tiquetaque a lembrar que há um mundo feio, onde Mundos de várias gentes coexistem, se interligam e do qual dependem. E penso que não se pode ignorar para sempre o tiquetaque de uma bomba relógio. Infelizmente, não é uma questão de fé. Ao contrário do amor.