Nesta Europa que parece continuar à deriva existe uma estratégia de crescimento, emprego e coesão social que poucas vezes é falada e que me parece ser a mais importante de todas. Designada Horizonte 2020 é a política de ciência e inovação para a estratégia de crescimento para a próxima década e que pretende transformar a UE numa economia mais inteligente, sustentável e inclusiva. É uma estratégia que procura reposicionar a Europa na competição económica global. Sem uma economia inovadora seremos ainda mais penalizados pelos países emergentes que continuam a competir com mão se obra barata e mercados em crescimento, luxos que a Europa já não goza. Em termos concretos a UE definiu 5 objectivos: emprego, inovação, educação, inclusão social e clima/energia. Cada estado membro é obrigado a definir uma estratégia própria que se enquadre nestes objectivos. Essa estratégia deve depois ser traduzida ao nível das regiões com planos sectoriais e esquemas de monitorização próprios. As verbas disponíveis no próximo quadro comunitário (2014-20) vão ser disponibilizadas com base nestes critérios rigorosos o que vai tornar o estratagema de direcionar verbas para outras áreas da economia cada vez mais complicado. Ao nível da ciência e inovação o plano prevê promover um desempenho científico de topo, remover os obstáculos à inovação e revolucionar a forma como os sectores público e privado trabalham em conjunto em particular através de parcerias inovadoras entre as instituições nacionais e regionais e as empresas. Os obstáculos à inovação são bem conhecidos, sistemas de patentes complexos e caros, fragmentação de mercados, baixos standards e falta de competências que colectivamente impedem as ideias de chegarem ao mercado. O investimento em inovação tem que estar assente numa base de cultura e desenvolvimento científico claras. Sem essa massa crítica por muitos que sejam os estímulos não existem ideias que possam chegar ao mercado. Por incrível que pareça Portugal não está nada mal colocado neste domínio. Nos últimos 10 anos a despesa em investigação e desenvolvimento subiu de pouco mais de 0,7% do PIB para 1,64%. Estamos neste importante indicador muito próximos da média europeia (2%) e de países como o Reino Unido (1,86%), Holanda (1,82%) e Noruega (1,8%) e claramente acima de Espanha (1,39%) e Itália (1,26%). Só estamos muito longe dos nórdicos que continuam a apostar fortemente nesta área com a Finlândia (3,92%) e Suécia (3,61%) no topo. Este esforço notável que fizemos em Portugal já está a ter resultados importantes com prémios e distinções de cientistas portugueses ou radicados no nosso país. Já estamos ver ideias chegarem ao mercado com empresas inovadoras e competitivas criadas em torno dos ecossistemas universitários. Tudo isto enquanto continuamos mergulhados numa profunda crise económica e financeira. Para 2020 o objectivo do Horizonte 2020 para a UE é de 3% do PIB em despesas de investigação e desenvolvimento. Parece complicado de atingir mas Portugal já fixou a sua meta em 2,7% o que representa um salto semelhante ao dos últimos 10 anos. Este investimento é um dos principais ativos que Portugal tem neste momento. Numa altura em que ninguém parece saber o que fazer em termos económicos convinha que pelo menos não fosse hipotecado o esforço feitos nos últimos anos. Em vez de tentarmos salvar os sectores da economia que não têm qualquer hipótese é altura de apostarmos numa área que tem potencial de futuro. É para isso que servem as crises e só assim se justificam os esforços que todos estamos a fazer. A situação da Madeira neste domínio é muito complicada. A região tem um dos piores indicadores nacionais com apenas 0,28% do PIB em despesas relacionadas com I&D. A macrocefalia do nosso país é também neste domínio implacável. Acima da média nacional apenas temos Lisboa com mais de 2,4% e todas as restantes regiões com exceção do Centro e do Norte estão abaixo de 1% do PIB. As razões para estes desequilíbrios são múltiplas, a começar no caso da Madeira pelo facto de ter uma Universidade jovem e ainda em afirmação e por uma fraca tradição de influência de investigadores em sectores decisivos da sociedade. Os lóbis (no bom sentido) são muito importantes também numa área com a I&D que é sempre bem aceite pela população em geral mas necessita de visibilidade ao nível dos decisores. Estou certo que a Madeira tem um enorme potencial neste domínio. Temos todas as condições para nos conseguirmos afirmar em alguns sectores de I&D, em particular relacionados com as tecnologias, os oceanos, a saúde e o turismo. Mas como tenho repetido tal só será possível com um forte investimento e uma estratégia clara impulsionada pelo sector público. Os 0,28% do PIB na Madeira representam pouco mais de 14 milhões de Euros, para atingirmos a média nacional teríamos que multiplicar esse valor por mais de 4 para atingirmos mais de 80 milhões de Euros. Para atingirmos o objectivo europeu de 3% do PIB teríamos que ter mais de 150 milhões de euros! Estes valores em I&D representam criação de postos de trabalho qualificados (bolsas de doutoramento e mestrado), investimento em bens e serviços locais (missões e serviços diversos) e overheads que tornam viáveis infraestruturas (muitas delas já existentes). Tudo isto permitirá atrair e manter os talentos que uma região como a nossa com uma economia em transição não pode perder. Só assim podemos ser competitivos e atrair ainda mais investimentos. Não são valores impossíveis de conseguir mesmo num cenário de profunda crise. Mas temos que começar porque 2014 é já daqui a um ano e meio.
Nuno Nunes Professor - Universitário Presidente do Madeira-ITI, Carnegie Mellon Portugal