Manuel João Baptista Rosa Desde criança que a Páscoa mexia comigo mais do que qualquer outra celebração cristã. Intrigava-me o facto de ideias justas e propagandeadas de forma pacífica, por Jesus, terem tido um desfecho tão dramático. Hoje compreendo perfeitamente a reacção violenta do poder político dominante da época. Nesse tempo havia muitos deuses e uma classe social ao nível dos animais – os escravos – a qual sustentava economicamente a classe dominante. O facto de Jesus ter afirmado a existência de um só Deus e que todos os seres humanos eram seus filhos mexeu, de forma violenta, com os alicerces sobre os quais assentava a classe social que detinha o poder económico e, por conseguinte, o político. Não foi, portanto, o poder religioso o principal responsável pela morte de Jesus mas sim o poder económico, politicamente representado por Roma, o qual não podia aceitar a existência de um só Deus e, portanto, que todos os seres humanos, sem excepção, eram iguais, por serem seus filhos. Dessa forma não haveria escravatura e, por conseguinte, a sustentação económica da classe dominante, o que era inaceitável pelos ricos. Ainda hoje a questão da igualdade não é pacífica, quanto mais há dois mil anos, com a escravatura. Jesus foi crucificado por questões políticas e o facto de ter sido utilizada a cruz como castigo é disso mesmo prova pois aquela era, formalmente, a forma através da qual Roma castigava todos os seus inimigos políticos. Atente-se ainda na perseguição feroz ao movimento cristão por parte de Roma a qual, durante três séculos após a morte de Jesus, fez milhares de mortos. A razão é só uma – a mensagem da igualdade de todos os seres humanos perante Deus, a qual ponha claramente em causa os interesses dos ricos. Mas Jesus foi mais longe quando, para além de defender o princípio, identificou o pecado que impede a sua concretização prática – a acumulação da riqueza – ao impor a um rico que desejava segui-lo a condição ”reparte os teus bens e segue-me”ou ainda quando afirmou “é mais fácil entrar um camelo pelo buraco de uma agulha do que um rico no reino dos céus”. Aqui está a doutrina da igualdade aplicada ao campo económico – a repartição equitativa da riqueza visto que ela pertence a todos os irmãos e não apenas a meia dúzia. E, ainda que estes tenham recebido dons que lhes permitam tal acumulação, esses dons só podem ter vindo de Deus e, sendo assim, deve o produto dos mesmos ser repartido por todos. Esta é a grande mensagem de Jesus, que só foi apregoada pela Igreja de forma acutilante até ao acordo com Roma, para se tornar a sua religião oficial, mas pelo qual pagou um preço demasiado alto: abdicação da mensagem da igualdade, no sentido económico que Jesus pretendia, e da luta a favor dos pobres que até então desenvolvia e que tantos mártires causou. Constantino, o imperador de Roma, foi inteligente pois dessa forma matou dois coelhos duma só vez: acabou com as demais religiões que tantos problemas causavam ao império e, simultaneamente, impôs a não divulgação do princípio da igualdade o qual combatia frontalmente a escravatura, suporte económico da classe dominante. Pena é que a Igreja, em consequência do acordo referido, não pregue a mensagem da igualdade no sentido económico que o próprio Jesus lhe atribuiu e preconize a caridade em sua substituição. Ele exigiu justiça económica e não caridade. Mas até a caridade, substituta da igualdade, nem a própria Igreja pratica – possui bens valiosos que não disponibiliza, nem sequer neste momento em que tantos irmãos, reconhecidamente, atravessam enormes dificuldades. Deveria ser a primeira a repartir mas não o faz e, com isso, comete o pecado maior segundo Jesus – a acumulação da riqueza – o qual é, sem qualquer sombra de dúvida, a origem principal de todos os males que assolam o mundo em que vivemos. Basta olhar aqui mesmo à nossa volta para constatarmos as consequências desse pecado. Jesus não foi o único filho de Deus que morreu pelos ideais da igualdade e justiça económica, mas foi o único que preconizou, como estratégia para alcançar tais objectivos, a via da palavra e da paz o que O diferencia de todos os outros. Daí ser seu fã apenas pelos ideais e pela estratégia. Nada mais.