Como para muitas coisas, ainda estou para fazer um juízo de valor ao filme "Árvore da Vida", de Terrence Malick. Não me agradou particularmente, mas tenho de lá voltar para perceber se não foi esse o objectivo e se isso não fará dele um filme de sucesso. No entanto, alguma coisa se aproveitou. "As freiras ensinaram-nos que havia duas vias para a vida, a via da Natureza e a via da Graça. E que era preciso escolher", disse Mrs. O'Brien, resu-mindo o conflito que afligia a família. A via da Graça seria um esforço de transcendência, um apelo à caridade e amor cristão, não só para com todos os homens, mas para com todos os agentes da natureza. Como se desdobrou Mrs. O' Brien: "ajudem-se uns aos outros. Amem toda a gente, toda a folha, todo o raio de luz. Perdoem." A via da Natureza seria uma arena de conflito, de sobrevivência do mais forte, onde o espírito competitivo e o desejo de prevalecer sobre o outro seriam reis. O National Geographic do domingo de manhã, sem narração ou penitência, onde o Homem cederia ao impulso de se consagrar enquanto espécie dominante sobre o resto do planeta. Nas palavras de Mr. O' Brien "a tua mãe é ingénua. É preciso vontade férrea para vencer neste Mundo. Se fores bom, as pessoas aproveitam-se de ti." Na sua deambulação lírica, o filme parece entrar por um caminho artisticamente eficaz, mas contrário até à minha educação mais distraída das coisas do mundo - o de que a via da Natureza e a via da Graça seriam sempre vias diferentes. Não é assim. A Natureza, nas suas estações e convulsões, não é totalmente estranha à beleza, ou até à justiça. A Democracia, no seu compromisso entre a atribuição ao Estado de poderes policiais e administrativos e a realização de eleições gerais, faz claramente uma síntese entre uma via da Natureza, onde o mais forte governaria sobre todos, e uma via da Graça, onde o Estado e a própria Sociedade evoluiriam para um estado de fraqueza e desagregação onde fosse impossível governar. Porque é Domingo de Páscoa, a iconografia da cruz de Cristo faz também esta síntese - a trave horizontal representando a via da Natureza que condena os homens a ir uns contra os outros (a morte), a trave vertical representando a via da Graça que neles cria um chamamento à transcendência (a "vida eterna"). É por isso que a luta pela sucessão no PSD, independentemente do juízo pessoal de oportunidade ou do mérito das candidaturas, é uma coisa boa. Na vida, tudo muda, e todas as coisas competem pelo seu lugar na mudança. A destruição é criativa. Caraças, enquanto as letras competem pela página, dizem-me as palavras que ficaram de fora que não - que a própria criação é destruidora. E dou por mim a pensar que uma erupção é uma fúria temível, mas que dela nascem ilhas. Que ir "prá frente sempre" implica, naturalmente, encontrar alguém, e que isso nos obriga, não sem graça, a ser melhores. E nós precisamos, como sempre, de ser melhores. Eu, por exemplo, vou ver o filme outra vez. Boa Páscoa.
Pedro Fontes, Advogado Estagiário