Violante Saramago Matos Há, sabemos, na nossa cidade um homem evidentemente doente e que muitas vezes passa por nós a praguejar, usando uma linguagem irrepetível. Por via de regra caminha a grande velocidade, parcialmente absorto, embrenhado no seu mundo que imagino estar povoado de imagens e fantasmas que o consomem e afligem. A este homem é, moral e eticamente, devido respeito. Quando assim acontece, torna-se calmo, um pouco conversador até. E uns minutos depois despede-se com um Bom dia ou Boa tarde. Conforme o caso. Não é esta, infelizmente, a regra. Pelo contrário, a cidade está cheia de verdadeiros idiotas e cretinos que se divertem a insultá-lo e a espicaçá-lo. Quando ele reage, de forma verbalmente violenta, espalha-se pela cara dos provocadores uma gargalhada néscia, obscena. Foi o que aconteceu hoje à porta da Câmara do Funchal. Três sujeitos (não garanto se funcionários da autarquia) já o tinham 'espicaçado' fazendo-o despejar uma série de impropérios. E eles riam. Os pobres! Quando eu descia a escada para o parque dos carros ouço um deles dizer para os outros dois 'pica-o'. Não me contive! Não tive pachorra para pedagogia ou boas palavras. Chamei-os cretinos; perguntei-lhes se não tinham vergonha do comportamento que estavam a ter; se sabiam que qualquer um deles - ou um filho deles - podia ser atingido por aquela doença. E se, nesse, caso, gostavam de ser assim tratados. No meio da rua. Humilhados. Provocados. Nenhum me respondeu. O cumprimento esboçado à antiga vereadora empalideceu, sumiu-se. Fugiram, como das suas caras fugiram os risos. Ainda se aproximou o segurança da Câmara a ver, talvez, se seria preciso intervir no tumulto. Pena que não se tivesse chegado antes, impedindo comportamento tão vergonhoso. Hoje é 5ª feira de Páscoa. Supõe-se que estas criaturas, católicas, em algum dia destas celebrações possam ir à Igreja. Rezar, bater com a mão no peito, talvez até confessarem-se. Altura para ajustar contas com o vosso deus. Por isso não se esqueçam - se para tal tiverem coragem - de fazer um profundo acto de contrição! Boa Páscoa, se puderem. Para vocês e para todos quantos assim procedem. E são tantos! A este homem, de quem não conheço sequer o nome, peço desculpa. Por o ter trazido para este meu desabafo. Mas é que, verdadeiramente, deu-me vómitos o comportamento daquelas criaturas à porta da Câmara Municipal do Funchal.