Anda tudo trocado. Não é só a chuva que tarda em vir, nem o sol fora de tempo, que nos leva à praia em meses improváveis. Nestes tempos sem estações, deixou de haver tempo para penitências pascais, ou jejuns da Quaresma. O povo está condenado a um jejum constante de coisas, de bens, de apoio social. Está desamparado.
Mas por mais que grite “porque me abandonaste” a pais ou padrastos, ninguém lhes dará resposta. Porque numa altura em que está tudo de pernas para o ar; com a vida de famílias inteiras a darem piruetas no desemprego e no caminho da pobreza, há coisas que se mantêm estáticas. Há jejuns e penitências que nunca chegam e areais sempre apetecíveis para aqueles a quem o sono não se perturba por mais que o povo sofra e se anteveja mais sofrimento.
Já passei a fase da urticária pelo pedido de desculpas, que nunca veio. Mas não aceito a resposta “fiz tudo bem feito, não me arrependo de nada”. Pelo simples facto de que nunca se faz tudo bem e também raramente se faz tudo mal. O importante era aprender com os erros e usar esse capital errático para assegurar que o percurso de experiências boas e más é um trunfo basilar para ultrapassar esta fase difícil.
Nesta período de tempos trocados e incertos, onde a fé vem ao de cima sobretudo numa sociedade católica apostólica por excelência, gostava de ver arrependimento, porque esse seria o primeiro passo não do caminho do Céu nesta Terra de brandos costumes a meio do Atlântico plantada, mas pelo menos o início da fuga deste purgatório a que os madeirenses (ainda mais do que os restantes portugueses) estão condenados.
Mas preferem fazer humor. Anda tudo com jeito para a piada. Confessa-se apostas para ver quem cumpre a agenda da austeridade, uma meta a que, mesmo que se chegue, já se sabe à partida que é para perder tanta coisa pelo caminho.