Sou filha de Abril e, felizmente, nunca soube o que é viver em ditadura. Dela conheci-lhe os resquícios, o que me faz pertencer ao leque dos que consideram fundamental que se assinale este marco da nossa história com a pompa que merece. Não porque acredite que a revolução foi um fim em si mesmo, que não foi - a luta por uma sociedade melhor, mais justa e livre faz-se todos os dias – mas pela importância que teve não só para os que a viveram e sentiram na pele as mudanças sociais, mas por todos aqueles que, como eu, tiveram a sorte de ter nascido longe das agruras de um regime castrador como o anterior.
Por isso, arrepio-me ao ouvir as músicas que serviram de senha e emocionei-me a ver uma delas cantadas à capela no parlamento nacional, pela mesma voz de quem a imortalizou há 38 anos atrás. E causa-me incómodo quando vejo o desconhecimento dos mais novos em relação a esta data, que dentro de alguns anos estará condenada a ser mais uma no calendário dos feriados. Porque os problemas desta geração hoje, que serão de outra índole é certo, não deverão servir desculpa para camuflar as dificuldades de outra geração nas folhas de enciclopédias e livros da especialidade. É um erro desvalorizar a riqueza do nosso passado e não aprender com ele.
O que não compreendo, confesso, é que a grande notícia desta 25-4 tenham sido as ausências da instituição que tem o nome da revolução e de Mário Soares e Manuel Alegre das comemorações oficiais no parlamento. Então o 25 de Abril não serviu para isto mesmo? Para cada um ter a liberdade de escolher em conformidade e em respeito com os outros?
38 anos depois, os cravos serviram para muita coisa, inclusivamente para que a actualidade noticiosa deste Abril de águas mil seja feita de faitdivers como este e outros. A título de exemplo a desvalorização de um trabalho da justiça, que veio sob a égide de uma ‘Cuba livre’, mas que deixa antever outros territórios libertados mesmo com décadas de atraso. Abril serviu para tanto. Até para legitimar o direito dos que garantem que, nestes dias de revolução, a Madeira está ser usada como uma ‘manobra de diversão” ou como uma “ forma de comemoração abrileira’. E esta liberdade libertina não tem preço.