...mas não bastou para limpar a antiga ordem ditatorial na Madeira! Sempre que se celebra mais um seu aniversário surgem vozes que sustentam que o 25 de Abril não chegou à Madeira! Sou daqueles que participaram activamente nos acontecimentos do pré e post-25 de Abril e não posso concordar com essa afirmação. O 25 de Abril chegou à Madeira, fez movimentar dezenas de milhares de mulheres e homens, impôs com luta a conquista de direitos que vários deles ainda hoje perduram, fez com que um Povo espezinhado por um regime semi-feudal caracterizado pela existência da colonia e por condições de trabalho miseráveis ganhasse a sua dignidade e a traduzisse na conquista da Autonomia Político-Administrativa da Região inscrita na Constituição de 1976. Foi Abril a chegar a conquista dos Sindicatos, correndo as Direcções fascistas, e ganhando com isso Contratos Colectivos de Trabalho dignos; foi Abril a chegar a limpeza das Câmaras Municipais do anterior regime e a imposição de Comissões Administrativas abrindo caminho a eleições democráticas; foi Abril a chegar a luta pelo direito à Habitação que forçou mais tarde o Poder Regional à construção de Bairros Sociais; foi Abril a chegar a recusa a pagar a metade aos senhorios abrindo caminho à extinção do odioso e feudal regime de colonia; foi Abril a chegar a luta por direitos elementares das mulheres trabalhadoras com particular destaque para as Bordadeiras de Casa que viram consagrados mais tarde o direito ao subsídio de desemprego e à reforma; foi Abril a chegar o saneamento de fascistas de postos chave que ocupavam fazendo com que nesse período se respirasse com mais Liberdade! Abril passou por aqui e varreu muita porcaria e impediu muita traição! Varreu o quisto do Iate Apollo que espiava e organizava a reacção na região por conta da CIA; impediu que fosse negociado entre o Ministério do Trabalho e a Junta Governativa um acordo para que o Salário Mínimo a aplicar na Madeira fosse menor do que o do Continente - cercados os negociadores no Edifício da antiga Junta Geral só de lá saíram de madrugada quando garantiram a milhares de trabalhadores que eles iam receber o mesmo que os outros; desocupou o edifício da antiga Emissora Nacional dos Flamistas que exigiam a expulsão da Madeira dos mais destacados lutadores pelos direitos do Povo! Abril passou mesmo por aqui! Fez as pessoas ganharem direitos com luta! Mas provocou a ira dos priveligiados do antigamente! Esses tentaram ganhar a rua com manifestações da Flama, mas não o conseguiram como nos Açores a FLA o conseguiu! Até a vinda de Sá Carneiro à Região ia servir de pretexto para fazer surgir na Madeira uma onda de ataque às sedes dos Partidos de esquerda como estva a acontecer no Continente, não fosse a vigilância popular em conjunto com as FAs em todas as entradas da cidade onde muito material foi apreendido. As bombas rebentaram, os boatos e as calúnias cresceram, a campanha de desinformação aumentou! Mas o decisivo para o antigamente voltar ao poder com novas vestes foi a Igreja e o Jornal da Madeira! Chefiada pelo discípulo dilecto do Cardeal Cerejeira, Dom Francisco Santana, a Igreja na sua quase totalidade cerra fileiras no apoio ao então PPD. O seu aparelho, somado ao da ANP e da LP, não desmanteladas, constituem a base do reerguer da direita na região e conduzem-na ao Poder nas primeiras eleições regionais de 1976! Mesmo assim AJJ teve que provocar a queda da CP do PPD e com ela do primeiro Presidente do GR, engenheiro Ornelas Camacho, para se instalar na cadeira até hoje. No princípio ainda cederam à satisfação das reivindicações e necessidades das populações. Ainda estava fresca na sua memória a luta de todo este Povo que aproveitou como pode e como soube as portas que Abril abriu! Depois e até hoje governaram para os grupos económicos que se formaram à sua sombra e foram a sua razão de existir! Abril passou pela Madeira! Devia ter ido mais longe, é certo! Mas a história não se faz de ses... Foi o que os seus intervenientes foram capazes de fazer na época! E mesmo assim do que fizeram ainda reza a história pois várias conquistas perduram e os governantes continuam com medo do 25 de Abril e do Povo nas ruas e em luta! Lembrar estes factos é ajudar a manter viva a chama da luta é a melhor homenagem que posso prestar ao meu camarada e amigo, Miguel Portas, que a doença o levou prematuramente.

Paulo Martins