Violante Saramago Matos Fizeste-me saber que gostavas que fosse a segunda da lista que encabeçavas ao Parlamento Europeu. Resisti. Perguntaste, então, se podias vir à Madeira falar comigo. E na manhã combinada lá fui buscar-te ao aeroporto. Miguel, como está? Violante, como vai? Dez minutos depois disparaste: Olha lá, não é melhor tratarmo-nos por tu? Claro que era. Passámos a manhã na Praia Formosa; para cá e para lá, entre cafés e calhaus jogados ao acaso, falámos (falaste que eu preferia ouvir, é melhor dito) da Palestina, de Israel, da Turquia, do Médio Oriente, da guerra contra o Iraque. Dos poderes instalados. Da Europa e do Mundo. De direitos, do Estado social, dos perigosos caminhos que se desenhavam. Dos teus sonhos, dos teus sentimentos. E do que se adivinhava - da tua índole de combatente pela defesa dos mais pobres e explorados. Da tua tenacidade, da tua força. E, também, da tua necessidade de ouvir; por isso sempre a pergunta "O que é que tu achas?" Um homem cheio de cultura, de uma simplicidade admirável com a sua camisa por fora das calças e uma camisola pelos ombros; falaste quase como que pedindo desculpa de tanto conhecer realidades que me eram fisicamente desconhecidas. Foi já no fim do almoço que veio a pergunta 'E depois desta conversa toda porque é que não aceitas ser a minha nº2?' Continuámos a conversar porque, além de um extraordinário homem de cultura, eras um verdadeiro sedutor da palavra. Foste embora à noite. Pedi um dia, aceitei e o resto é conhecido. Mas o que já não é conhecido é a ternura que o Miguel passou a dedicar-me. Sem nenhuns contactos anteriores, o Miguel Portas revelou-se de uma atenção e um cuidado impressionantes. Encontrámo-nos algumas vezes (em Lisboa e na Madeira) e falámos muito. Os caminhos políticos não nos afastaram; levaram a muitas conversas que, obviamente, não têm aqui (nem terão nunca) lugar à divulgação. O Miguel Portas não precisava de estar ao nosso lado para estar presente: a linha telefónica trazia a sua voz rouca, a gargalhada cheia, os olhos brilhantes cheios de entusiasmo e de vida, a generosidade com que nos ouvia. Não voltarei a ouvir o 'Então miúda, como é que isso vai?' Mas não consigo apagar o teu número da minha lista do telemóvel. Um grande abraço.