Num país constrangido por uma crise, com pouco dinheiro a circular nas mãos dos cidadãos, aqui e acolá com focos de instabilidade social e emocional, é natural que para alguns reste apenas o desconsolo e a desolação que transmitem nos seus espíritos sentimentos de uma inabalável frustração. Quantas vidas de trabalho, de servidão e de sacrifício se apagam, sem futuro, com pouca esperança. Olhos num horizonte de linhas tremidas, num limite enevoado, em que esse além ameaçador reflecte-se nos seus cérebros como o abismo que tudo aniquila, povoado de fantasmas, um Adamastor devorador, no fim de uma linha de vida. Agora interrogam-se sobre o que terá corrido mal. A imagem de quem fica na praia olhando o mar infinito, virando lentamente as pedras do calhau ou esgravatando com um pauzinho a areia que se alisa em cada onda que ali morre, é bem o espelho desta frustração, deste desfazer, de um novelo desenrolado, cujos fios estão emaranhados para sempre. Na passagem de mais um aniversário da Revolução de Abril, não foi renovada a esperança. A Liberdade conquistada deu-nos a possibilidade de pensar em voz alta, de rebelar-nos contra o Poder, mesmo que instituído por maiorias firmes, de questionarmos e de apontarmos o dedo ao que julgamos estar mal. Contudo, não estamos livres de em seguida sermos colocados no lado dos diferentes e desinteressantes, porque a sociedade criou este estigma de dividir bons e maus, segundo os critérios das conveniências ou da selecção que os ouvidos de cada um faz através dos desvarios das suas opiniões. Um desatino que a democracia, no seu todo, não selecciona, já que este culto de liberdade implica tolerância e respeito pela opinião alheia. E aqui, considero que pouco evoluímos em quase quatro décadas. Precisamos resgatar esta Pátria, entender o valor da cidadania e procurar entendermo-nos como pedras fulcrais do desenvolvimento que interessa a esta Nação. Precisamos primeiro saber escolher, interessar-nos pelas pessoas, pelas suas qualidades e aptidões, entender as diferenças, e não andarmos na crista da onda, ao sabor da vaga. As marés não são de confiar, nem o vento acerta o melhor rumo nas artes de marear… Ontem falou-se de Liberdade. O mês de Abril (que amanhã terei de escrever com letra minúscula, por imposição legal, que não quero cumprir), os cravos, as baladas que marcaram os primeiros passos da Revolução de 1974, são elementos reconhecidos e aclamados pela sua inexorável ligação a uma das fases mais bonitas da minha geração, mas estão gastos e maltratados por quem lhes deveria respeito. Salgueiro Maia não merece que o que resta dos “Capitães de Abril” coloque em causa as comemorações no local que por excelência representa a vontade do Povo, mesmo que existam divergências de fundo com o rumo do regime político-partidário. Nem eu esperava que Mário Soares, que libertou este País dos excessos de alguns pelotões de militares que queriam fazer da gestão pública profissão, optasse pelo amuo, quando está bem longe dos palcos e perdeu o encanto. Como cidadãos temos também a obrigação de resgatar esta Pátria. Se o regime não interessa, inventemos outro. Se estamos fartos dos partidos, vamos refundá-los. Se queremos um futuro melhor é preciso empenho, rigor e verdade. Sentados nas pedras do calhau pouco faremos. Olhando para o horizonte… procuramos o sonho, não criamos nada, nem sequer conseguimos desdizer os que pouco sabem ou os que querem governar tanto tempo quanto os outros que em Abril expulsámos apenas com o roncar das “Chaimites”. A estes, a geração que me segue, nem lhes sabe meter medo… No final de linha, também, porque o tempo é implacável, resta-me procurar onde poderei encontrar mais caminho. Mesmo que Pátria seja, por vezes, um desígnio duvidoso, pouco credível nos dias de hoje, em que a globalização leva-nos a estender o vínculo pelo mundo e me obriga a ser cidadão de uma Europa a 27, continuo a pensar que o resgate da Pátria é uma obrigação de todos os Portugueses. Neste resgate nos encontraremos.