Entre o dia 1 e o dia 25 de Abril a distância não é grande. São vinte e tal dias de calendário… Já conceptualmente as disparidades são abismais! O dia 1 de Abril é um dia democrático. Há liberdade absoluta. Cada um diz o que quer e ninguém é perseguido por isso. É um vale tudo popular. Uma licença para sonhar. E toda a gente sabe ao que vai. Não se engana o povo porque, à priori, o povo sabe que pode ser enganado. Logo, vive o dia em estado de alerta. Por seu turno, o dia 25 de Abril é o dia da mentira. Os "livres" celebram a memória do sonho que não aconteceu. Espetaram-lhes um cravo na lucidez e serviram-lhes uma Junta de Salvação Nacional para o jantar. Ninguém escolheu. Mas ninguém contesta. Vivemos em paz porque "a democracia é o governo pelo povo"… Custa-me. E dizia o poeta que para sonhar não é preciso pagar… Em questões de liberdade, enquanto o homem sonha o mundo não pula nem avança. É que nós andamos embriagados com os ideais de Abril, mas quer-me parecer que nos cortaram a raiz do pensamento com uma flor. E, paralela ao devaneio de mãos que erguem cravos, vive a realidade da ditadura de classes dominantes cravada em corpos sem mãos. Por isso, em vez de compor uma ode à fantasia eu faço um apelo à consciência: - A nossa democracia é a forma mais perfeita de ditadura que existe. O povo pensa que escolhe e vive sereno a sua miséria, porque não se pode revoltar contra si mesmo. Pssssst... Acorde! Você está a sonhar…
Rubina Sequeira - Deputada do PND