"Canto do cisne" é uma lenda. Uma antiga crença. Dizia-se que o cisne branco era completamente mudo durante toda a sua vida, cantando, unicamente, uma bela e triste canção antes de morrer. Mas, pergunto, bela e triste canção para assinalar o fim? O meu conceito de beleza é outro. Mas, enfim, é sabido desde tempos remotos que esta crença é falsa. E porquê? Porque os cisnes brancos não são mudos durante a vida, produzem grunhidos e assobios; e não cantam ao morrerem. Não obstante, a lenda/crença permaneceu através dos séculos. E dá jeito. Por extensão, canção do cisne ou "canto do cisne" tornou-se uma metáfora, referindo-se a uma aparição final teatral e dramática. Estou sentada na plateia. O bilhete é caríssimo. Nunca pensei. Nós que tivémos tudo até perdermos tudo. Ainda vou pagá-lo durante muitos anos. Vim a pé. A gasolina está pela hora da morte. A bica custa mais 50 cêntimos. O café é mau. Desisto. O pano abre. Silêncio. À boca de cena o arauto lê uma mensagem ao povo. Reparo que a plateia está quase vazia, assim como alguns adros de igrejas nos últimos tempos. O arauto desdobra pela segunda vez o rolo de papiro. E volta a ler a nota para que o público perceba bem o significado das palavras e dos actos. Este é o primeiro acto. O DCIAP e a investigação criminal às contas da Madeira, consequência inquérito aberto pela PGR, Procuradoria Geral da República. Não me digam que esta é a continuação da peça que estreou em Setembro do ano passado, mas actualizada?. Dizem-me que sim. De repente, cai-me a ficha. Amanhã comemora-se os 38 anos da revolução dos capitães, o 25 de Abril de 1974 em Portugal. Com cheirinho a alecrim. Não! Acho que não…palermice a minha. A revolução fez-se de forma sigilosa. Neste caso, sabíamos desde a estreia da peça em Setembro passado que a operação iria, mais cedo ou mais tarde, acontecer. Campo da Barca. Óbvio, dizem. Gil Vicente também escreveu um auto. E era do Inferno. E agora ? Terminado o primeiro, entra um entertainer para anestesiar o susto. Fala de estraddas. Mas ninguém liga. Há apupos e pateada. Todos querem ouvir a voz do narrador. Este texto dramático - com laivos de tragédia grega (durante anos ouvimos os coros, mas ninguém ligou) é constituída por um conjunto de "short stories", vários quadros. Portanto, vamos agora assistir a uma zarzuela sobre um partido (literalmente partido) em que o líder ficou colado à cadeira do poder porque achou que era eterno. Depois de mim o caos. Certo, acredito. Entra, neste momento, o cisne branco. Mas o arauto nem o deixa cantar e ameaça prolongar-lhe a agonia por mais uns tempos. O arauto comprime o diafragma, coloca a voz bem no peito e projecta-a para o fundo da sala. Volta a ler o comunicado do DCIAP. Faz-se novamente silêncio logo interrompido pelo entertainer cuja entrada em cena não se enquadra nas marcações. Há novamente pateada. O entertainer é obrigado a sair. Noutros tempos, talvez tivesse palmas. Mas as coisas mudaram e já ninguém privilegia a aparência das coisas. Não ver isto, é não querer ver nada.
Lília Bernardes