Era o faz de conta. Fechávamos os olhos, contávamos até 20. Uma infinidade de números soletrados enquanto os outros se escondiam nos sítios familiares. Aqueles mil vezes repetidos, mas que percorríamos no assombro de serem nossos e mágicos. Por dentro do muro do quintal havia um sem número de lugares secretos.

A cabeça encostada à parede, o aviso para não olhar por debaixo do braço, as vozes e os risos que se distanciavam numa alegria de passos rápidos e palavras às quais se tentava retirar o som capaz de denunciar a localização e as coordenadas de um coração a descompasso.

Contávamos até 20 e "aqui vou eu" , a descobrir-vos um a um, como quem explora tesouros escondidos. A descobrir-vos de novo, amigos de verdade, dobrados sobre os joelhos, barricados atrás dos vasos de fetos.

Tínhamos um pacto e uma senha que nos mantinha unidos, na amizade e na vida, nesse acordo de crescermos para além da curva do sol. E crescíamos às escondidas em todas as férias grandes. Oferecíamos o peito ao tempo e ao vento. Rápidos, a mergulhar para o jacto de água da mangueira, molhados até a alma, felizes até à pele, feitos de fidelidade até aos ossos que doíam ao crescer.

Desenhados da mesma matéria, cumpríamos os dias de sermos o grupo. Bastava o grito certo, a palavra secreta do coração para nos reunirmos. Estávamos lá, sempre. Primeiro meninos, depois desafinados. As pernas e os braços a ensinarem novos percursos, o coração rápido para lá da porta, a alma a pulsar por dentro e por fora de tudo.

Contámos até 20 e desaparecemos num qualquer recanto do quintal. Não terminámos o jogo. Ninguém reclamou vitória. Ninguém questionou a derrota. Mudos, desaparecidos em combate, transformados em memória.

Era inevitável a saudade.

Conto até 20.

Aqui vou eu!

Dói-me o vosso silêncio e os vasos de fetos sem meninos barricados. Pesa-me a vida simples de sermos sinfonia.

Conto até 20?