De mapa desdobrado, em traveling, em olhar contínuo, passeio lado a lado com arquitectos de lugares (ou poetas, como se lhes costuma chamar). Partimos de casa e a casa navega: "a minha casa sou eu onde eu estiver" (Irene Lucília Andrade); onde estamos, aonde aportaremos? Nautas, derivamos à procura de "um amor, um lugar, um sonho de casas eternas, um cais de outrora quando se acendiam as lâmpadas" (José Agostinho Baptista). É noite (as luzes acesas), estamos no porto difuso da memória, ancorados (ainda); não importa, o modo insular é o do transporte, por sentirmos que "até um barco parado viaja" (Carlos Faria). Agora no ecrã - devagar - "passo a fita ao ralenti para te sonhar" (António Aragão). Estamos na memória - não partiremos - conhecemos "a nostalgia que vive para sempre no coração da infância e dos barcos" (José Agostinho Baptista). Há figuras suspensas "e o mar, também, encontra-se diferente, suspenso em aquário" (Edmundo de Bettencourt). Este é um lugar inverso, movente: "de súbito, cai um meteóro radioso, que escorrega do céu e se esconde no mar" (Octávio de Marialva). Não parece haver aqui separação entre o que foi ou é vertical ou horizontal: o alto integra o plano e o plano ascende ao alto, o contorno é também o centro: "duma ilha vêem-se as periferias do mundo" (Eduardo Bettencourt Pinto). Esta é "uma paisagem transfigurada" (Herberto Helder). Como filhos do arquitecto, os poetas fazem-se voar: "daqui, é mais fácil olhar para baixo" (José António Gonçalves). "Arte do voo", arte do fogo, a poesia diz também a metamorfose da "mágica sabedoria de cozinhar água salgada" (Ana Margarida Falcão). Invertem-se, em pleno voo, as leis da gravidade, da velocidade e da intensidade: "a ilha está no fundo dum poço ou o poço está no fundo da ilha?" (José Martins Garcia). Como outra é a ilha, o mar é semelhante a "um deserto" (Roberto de Mesquita). Parece ser sempre dissemelhante o destino insular (de partida ou impossível regresso), sobretudo do "mundo interior a que eu acosto" (Cabral do Nascimento). Se partem, "levam uma pedra na mala com a forma da ilha" (José Laurindo Góis). Enquanto não regressam, estão "com a pedra junto ao rosto, como se ouvissem rádio" (José Laurindo Góis). "Esboço de outros destinos" (José António Gonçalves), alguma poesia diz-nos a "certeza de que a terra é o melhor sítio aonde chegar enquanto prosseguem as viagens interplanetárias" (Mário Machado Fraião). Nesta cidade descobri que "o chiado" era uma loja que vendia vestidos onde os tecidos com tantos tufos bancos pareciam nuvens suspensas (por fios transparentes, do tecto ao nosso olhar). As portas estão agora fechadas, transparentes e imóveis. Na montra, ao abandono, estão amontoados caixotes sem destinatário, tecidos sem forma nem futuro. Na mesma rua há uma pastelaria que nos promete a "Lua": na fachada o nome está escrito em forma de quarto crescente. Quase sempre vazia, parece o "mar da tranquilidade". Decrescente e decadente.nNuma rua próxima, esteve agrafada a uma porta (fechada, por enquanto ou para sempre, um, quantos dias?) uma folha de papel onde se lia uma promessa escrita à mão: "Fábrica de Sonhos". Do lado de fora da rua nem um só som. No silêncio do assombro - entre meteóros e a lua ao alcance do olhar em pleno dia, entre pedra e sal ou uma fábrica de sonhos e outros destinos por fazer - penso (ou sinto entrever) um movimento de imagens da cidade. Linhas, letras, lugares. Nomes como imagens da memória. As cidades movem-se em silêncio. É um filme. Mudo.

Diana Pimentel