Os momentos de crise económica são alturas em que as famílias se devem entre-ajudar mais, pois a crise geralmente não afeta todos os seus membros de igual modo. No atual contexto nacional, o desemprego não tem atingido todos os níveis etários de igual modo e os sacrifícios pedidos aos funcionários públicos e pensionistas em termos de cortes de rendimento não têm correspondência no sector privado, entre muitos outros exemplos. No entanto, a situação de entre-ajuda familiar está a ser posta em risco por aspetos que a lei devia ter acautelado e, infelizmente, não acautelou, sendo um deles o papel de fiador nos empréstimos imobiliários. Assim, um elemento da família ao entrar em incumprimento no pagamento das suas obrigações, arrasta posteriormente o fiador que, muitas vezes, é a pessoa da família que o poderia estar a ajudar a fazer face às dificuldades em cobrir as suas despesas, dificuldades essas resultantes das políticas de austeridade, factor impossível de prever ao momento do pedido dos empréstimos. Além disso, estas situações em que o fiador se vê, ou teme se ver, na obrigação de tentar pagar dívidas que não eram suas, está a levar a um aumento dos conflitos nas famílias numa altura em que esses conflitos só agravam em muito os problemas com que estas se deparam. No intuito de ajudar os familiares uma grande parte dos fiadores de empréstimos vê-se a si e à sua família numa espiral de empobrecimento quando para muitos desses fiadores o problema ético que se lhes foi colocado foi: "Como dizer que não vou ser fiador de um filho (ou irmão) quando o banco me diz que a propriedade vale o preço e que ele tem capacidade de pagar?". Perante este problema, quantos de nós não teríamos também dito que sim!
Pedro Telhado Pereira, Professor Catedrátido da Universidade da Madeira