Admito que "contado ninguém acredita", mesmo assim arrisco: a primeira figura dos órgãos de governo próprio da Madeira quer trabalhar no escuro. O presidente da Assembleia Legislativa promete criar um regulamento para impedir que jornalistas tirem fotografias ou filmem a pouca vergonha que são muitas das reuniões que se passam naquilo a que alguns chamam de casa da democracia. Parece mentira, mas é verdade! O presidente que aceita tão bem os palavrões e os insultos de alguns deputados da Maioria como tenta calar a gritaria de dois ou três da Oposição, que aceita que um deputado do PSD peça um atestado de sanidade mental a um deputado do PS, que convive bem com o escândalo dos milhões do 'jackpot' numa Assembleia que fala de pobreza, que quer jornalistas aprumados... agora também os quer calados. O ideal, imagino, seriam jornalistas surdos, cegos e mudos. A não ser, claro, quando o presidente profere os seus discursos. Aí sim, podem - e devem! - os jornalistas fotografar, gravar, filmar e debitar. Sem contrariar. A ameaça de proibição de fotografias ou vídeos a jornalistas que não sejam da televisão tem apenas um objectivo: esconder as cenas deprimentes que por ali se passam. Já não bastavam as comissões à porta fechada, as restrições impostas a quem lá vai trabalhar e os obstáculos atirados a quem procura informar, agora querem impedir que se mostre a ausência de bom senso que por ali impera. Na verdade, o que o presidente quer impedir que seja visto pelos madeirenses e os portugueses não serão tanto as birras inconsequentes de algum deputado mais truculento da Oposição. O que deve interessar mesmo é esconder a completa falta habilidade perante estes casos tão lamentáveis como os protagonizados pela Maioria, embora de forma ligeiramente mais discreta e menos ruidosa, mas igualmente condenável. Imagine o Leitor o jeitão que dava não se saber das acusações que lá são feitas, das denúncias que lá são assumidas, dos atrasos e das faltas dos deputados, das baldas de alguns que passam por lá a caminho do escritório, da fita-cola invisível que cobre a boca de outros, das reuniões feitas em apenas alguns minutos só para dizer que sim ou não, dos balúrdios pagos aos partidos, dos milhares gastos em pareceres e outras coisas que parecem mal numa Região com bem mais de vinte mil desempregados e outros tantos completamente enrascados. Bom mesmo era uma Assembleia à porta fechada, sem essa raça de jornalistas que teimam em dizer verdades que o povo não precisa saber. Isso é que era. Uma coisa assim discreta, tipo sessão de cinema nos bancos de trás e bem no escurinho. Aí sim. Aí até daria para um deputado acumular a sua função com a de advogado, empresário, funcionário, bancário, gestor, dirigente, tudo sem ninguém dar por isso, sem chatices. Felizmente que nesta matéria não há unanimidade. Que há deputados, mesmo entre a Maioria, que convivem mal com este ambiente de bolor e bafio. E há gente que prefere trabalhar em corredores arejados, com janelas e mentes abertas, mesmo sabendo que um povo informado é um povo menos controlado. Perante mais esta tentativa de silenciamento, aplica-se na perfeição uma das frases que mais marcaram o longínquo Maio de 68: "É proibido proibir".