Desde há vários meses que o Estado anestesiou os cidadãos e os colocou num sono letárgico que intervalou projectos e a execução do futuro. E fê-lo ao anunciar a perda de benefícios (que sabemos que não eram direitos) e ao retirar da economia o dinheiro que circulava e que era a seiva de um sistema de mercado de escala que alimentava emprego (que não era eterno, também sabemos) e que mantinha em funcionamento empresas e instituições que povoavam a nossa vida de todos os dias. Tudo mudou para evitar o declínio (fatal em qualquer circunstância) de um País que não se bastava a si próprio, que andava (e anda) ao sabor de quem lhe comprava (e compra) dívida, papel que transporta para a geração seguinte o prejuízo que esta gerou, já que não cria a riqueza suficiente para nos sustentar, embora com a desculpa de que outras economias das quais dependemos se atolaram também. Foi preciso tomar medidas. E aí não dependemos de nós. Deixámos que outros tomassem conta de nós. Ainda não entregámos o ouro, mas pouco falta. As imagens que se desenham diariamente nos media, quer através dos ‘cartoons’, quer através das declarações políticas dos que gravitam na gamela do poder, ou dos outros, quais abutres atentos ao decesso dos que se esgotaram nas justificações com que pretendem entreter o povo, evidenciam a paragem. Outra imagem, focada por alguns políticos, de que de tempos em tempos, mais frequentes que se possa imaginar, três funcionários estrangeiros (os tais da “troika”) desembarcam no Aeroporto de Lisboa para verificarem se estamos a gastar bem o que nos emprestaram, é bem a imagem da dependência e da subserviência a que estamos sujeitos. Nada mais eficaz que as imagens, os retratos sem subterfúgios das situações, que nos entram em casa ao alcance do botão, que nos liga, a cores, à realidade. Um poderoso “switch on” que coloca o nosso futuro em “off”. Por mais inovadores que procuramos ser, mesmo aceitando a frase gasta e sufocante de que “as crises criam oportunidades”, não deixamos de viver neste nervosismo inquietante provocado por tudo o que é transitório. Suspende direitos, faz-nos aceitar a desgraça, o mal menor e pensar que a situação de excepção não permite esperar pelo que os outros pensam ou possam pensar, a suposta ajuda que permitiria superar o desafio que a crise nos espeta bem à frente das nossas caras. Diariamente somos confrontados com este tempo de transitoriedade de medidas que o Estado impõe e que mata o futuro do País. A dúvida está em saber se o futuro está moribundo ou morto. A diferença não é muita. Mas devemos (e preferimos) lutar enquanto há algum pingo de vida. Contra o carácter transitório de tudo e para que o transitório não se torne efectivo com as condições que hoje estão em vigor. É preciso exagerar um pouco para despertar os que estão embalados no sono da descrença e para juntar os que acreditam que seremos capazes de recuperar este País e alegrar este Povo injustiçado. Enquanto as perdas não sejam maiores ou totais, mesmo que nos entretenham com a justificação de que os paradigmas mudaram e que nos incitem a inovar, quando perdemos o ânimo. Vamos dedicar-nos à terra, porque parte considerável da massa cinzenta que criámos e aperfeiçoámos está a abandonar Portugal. Nas ilhas ficam alguns. Partem os que não aceitam ser faroleiros, ou que recusam a submissão a um reino menor, de condes falidos e duques caídos na bancarrota, que obriga a plebe a pagar os devaneios da sua empreitada. Por muitos anos… quase “ad eternum”!