Este mundo que a todos pertence, feito de ocasos e essências é muitas vez parte integrante do nosso percurso, e compõe de igual modo, em maior ou menor grau, a nossa própria história. Oculto ou visível como qualquer cronica escrita no tempo para memória futura. Sim, porque a memória dos outros mais não é que a minha própria memória. Muitas destas memórias são um património de encontros e entusiasmos vividos mas também momentos de evocação e convívio. Vem isto a propósito de uma Missão a Cuba na qual fiz parte com mais oito leigos do MIIC (movimento internacional de intelectuais católicos) e cujo objectivo fundamental era coligir informação sobre a realidade politica, social e religiosa naquele país da América Latina para posteriormente ser trabalhada e utilizada pelas instituições da própria igreja. Esta missão realizou-se no início de 1992 e correspondeu, no seu todo, aos objectivos que nos proponhamos. Pois esta é uma dimensão da missão da Igreja que nunca está completamente realizada: ajudar os cristãos a interpretar a vida, a ler os acontecimentos, a reagir à realidade iluminados pela fé. Esta não é apenas uma prática religiosa; é inspiração cultural e ética a marcar a maneira de ser cristão em tudo: na vida pessoal e na reação à realidade envolvente. É que a Fé também é cultura, fonte de inspiração ética. Hoje, mais do que nunca, a influência da fé cristã na sociedade faz-se, não tanto pela via da autoridade e do magistério público, mas por esta maneira nova de os cristãos reagirem a toda a realidade que os circunda. Se o cristianismo mudou a história do mundo e deu um rumo novo a povos inteiros em toda terra, sempre à mistura com as imperfeições dos portadores da Boa-Nova também é verdade que os tempos mudaram. E mesmo com a necessidade de prosseguir o anúncio por mensageiros firmes e corajosos, portadores do archote da esperança e da libertação, uma exigência mais aberta e comprometida se descobre para a comunidade: ser considerada evangelizadora. Isto supõe que se ultrapasse a visão tímida de esconder o talento recebido para ser fruído num qualquer fragmento da eternidade. Quatro anos depois deste grupo de leigos, no qual tive a honra de participar, o Ex- Presidente Jimmy Carter chefiou uma missão a Cuba cujo objectivo era particamente o nosso e cujas conclusões coincidiam em 80% com aquelas que tínhamos referido quatro anos antes. Tive oportunidade de ler o chamado "Relatório Carter sobre Cuba" e recordo o que o agora Papa Bento XVI dizia no início do milénio sobre este tema: "Toda a Igreja para todas as igrejas e para todo o mundo" implica uma mobilização corajosa e eficaz de atravessar mares, visitar culturas, conhecer religiões, oferecer o evangelho como Boa-Nova. De forma viva e testemunhada, pacifica, dialogante e apaixonada. Implica também uma partilha real de bens, meios, pessoas na solidariedade sublime da fé. Foi o que fizemos com sentido de dádiva e de servir. Foi o que fez João Paulo II em Janeiro de 1998 quando visitou a Ilha e viu reconhecida a hierarquia católica como único interlocutor válido do regime. Esse foi, talvez, o fruto mais visível da histórica visita de João Paulo II ao país: recebido entusiasticamente por milhares de cubanos, o Papa Wojtila consegui alargar o espaço de intervenção pública da Igreja católica. O diálogo entre o Governo e a Igreja, conseguiu a partir de então, arranjar espaço a manifestações como procissões e actividades sociais da Igreja. Os bispos podem criticar as iniciativas do Governo desde que não ponham em causa o regime. Segui à distância, então em Macau, esta jornada de fé de João Paulo II e fiquei certo que a Igreja poderia reacender a aventura da missão, mais pacificada pelos novos dados do diálogo cultural que o nosso tempo oferece. Com o lema "Peregrino da Caridade" o Papa Bento XVI iniciou no passado dia 26 de Março uma nova missão a Cuba. A viagem coincidiu com o ano do quatro centenário da descoberta da imagem da Virgem da Caridade do Cobre, a padroeira da Ilha. No país menos católico do continente que conta apenas com 10% de católicos em 12, 6 milhões de habitantes, o Papa reuniu-se com o presidente Raúl Castro. Cuba recebeu o Papa com alegria. No último dia da visita, Bento XVI presidiu à Missa na histórica Praça da Revolução e manteve um encontro com antigo líder histórico cubano Fidel Castro. Já antes, numa Missa celebrada na Praça António Maceo, em Santiago de Cuba, invocando a Virgem de La Caridad Del Cobre, a padroeira deste país, Bento XVI pediu aos cubanos para darem um novo vigor à fé, mas sobretudo, para lutarem com as armas da paz, do perdão e da compreensão para construírem uma sociedade "aberta e renovada". Com o Presidente Cubano Raúl Castro sentado na primeira fila o Papa destacou o papel da Igreja Católica e a necessidade de estar na vanguarda do processo de construção de uma "sociedade melhor". Essa nova sociedade deve ser "mais digna dos homens" e manifestar "melhor bondade a Deus". Cuba precisa do testemunho e fidelidade de todos os cristãos e, também da unidade entre todos os cubanos, da capacidade de acolher a vida humana, sobretudo os mais indefesos e necessitados, referiu o Papa. Durante homilia Bento XVI deixou uma palavra para as dificuldades e circunstâncias concretas que a Igreja vive em Cuba neste período da História. Pediu paciência para enfrentar as contrariedades e aflições, convicto que Cristo ajudará a vencer o poder do mal. Em Cuba, o Papa condenou o longo embargo económico imposto pelos Estados Unidos: " As medidas económicas restritivas impostas de fora pesam negativamente sobre a população e agravam a pobreza". Não deixou também de apelar ao respeito pelas liberdades fundamentais e pediu resposta " às justas aspirações dos cubanos". Defendeu a construção de uma sociedade "de largos horizontes, renovada e reconciliada" onde ninguém seja " excluído de tomar parte pela limitação das liberdades fundamentais". Não posso deixar de vos dizer que de uma forma particularmente feliz senti o sentido destas viagens e fiquei mais crente que a Igreja pode reacender a aventura da missão, mais pacificada pelos novos dados do diálogo cultural que o nosso tempo oferece. De facto o tempo é de partir com o coração mais forte, a fé mais viva e as mãos mais puras. Durante os dias desta visita de Bento XVI a Cuba fortaleci a minha fé e acreditei como nunca no papel da Igreja Universal. Prometo que quando um dia regressar a Cuba não deixarei de ir beijar a Virgem de La Caridad del Cobre que me acompanhou, que nos acompanhou, em tão importante missão, com amor porque sem ele a fé seria superficial e rotineira, talvez fragmentada e incoerente.

José A. Roque Martins