Embrenhado no meio da Laurissilva, de bordão na mão, o presidente do Governo vestiu o casaco de líder do PSD e deixou o aviso: "Quem se atravessar no meu caminho vai ter de me enfrentar pessoalmente". A ameaça, clarinha como água, peca por um também claro sinal de falta de coragem: não tinha destinatário definido. Apesar do bordão, o presidente do Governo, com o casaco de líder do PSD, não foi capaz de pronunciar o nome de ninguém. Abriu a boca, soltou a ameaça mas sem dizer: é para fulcrano, é para sicrano. Ou, então dizia: é para Miguel Albuquerque e para Cunha e Silva e para Bruno Pereira, e para Rubina Leal e para Pedro Calado e para Costa Neves e até para o ainda desconhecido Amílcar Gonçalves. Mas não. Por estranho que pareça aos mais distraídos, faltou coragem para enfrentar pessoalmente quem desafiou para o enfrentar pessoalmente. O que ficou decidido é que estão proibidos de se atravessar no caminho do que se diz o único importante. Logo ele, que se atravessou no caminho de todos nós há mais de trinta anos e que dá sinais de não querer desobstuir a rua. Já sei que não se pode falar do presidente do Governo sem lembrar o que era a Madeira antes e depois de o presidente entrar. Já sei que não se pode esquecer as vias rápidas e expresso, a água potável, a luz eléctrica, as escolas, os centros de saúde, o velho e o novo hospital, os parques de lazer, as promenades e tudo o que de bom tem esta terra. Nem sequer os dias de sol e o verde da paisagem natural. Mas também já sei que quem dá um saltinho ali ao lado, quem atravessa o mar ou cruza os céus, encontra igualmente coisas boas, muito boas e outras más e tão más quanto as nossas. A diferença é que nem todos esses lugares com coisas boas e más como nós, tiveram sempre o mesmo a (des)mandar. E muito menos tiveram o mesmo a dizer que ninguém pode discordar deles. E a verdade é que até aqui ninguém podia. Durante mais de trinta anos ninguém podia dizer que queria o lugar onde o presidente se sentou em cima. Nem sequer admitindo a hipótese de ele já não o querer ou de ser chamado para outras mais altas funções - miragem acalentada durante anos e nada! Ninguém se atrevia a dar um passo que poderia ser em falso. Nem para dizer: se ele não quiser, eu quero. Agora, agora as coisas mudaram. Numa semana apareceram um candidato efectivo e dois disponíveis se o chefe deixar o lugar, numa raríssima prova da réstia de democracia no partido da maioria. Independentemente dos objectivos, timings e metas de cada um, há três que estão disponíveis e que o admitem. É verdade que até agora só Miguel Albuquerque se declarou disponível para enfrentar abertamente o líder de sempre e que está numa posição diferente de Manuel António Correia ou de Cunha e Silva, que apenas aceitam avançar se Jardim se afastar. Mesmo assim, já três dizem que estão presentes, sinal de que as coisas mudaram. Não menos importante é o grupo de vereadores que responde com um prudente silêncio às ameaças e que está claramente atravessado no caminho de quem nunca teve de enfrentar ninguém, apenas de afastar uns quantos. Mas a política, sobretudo a política de trazer por casa, é feita de avanços e recuos pouco claros. De jogos de bastidores. De estratégias que tanto permitem agigantar uns como fazer ajoujar outros. Os próximos tempos serão decisivos. Para uns e para outros.