O ritmo com que o Governo nos impõe medidas brutais é tão intenso, que só pode ter o objectivo de confundir e assustar, colocando-nos numa situação de letargia inconsciente. A comunicação das notícias parece uma trapalhada: primeiro, os 13º e 14º meses eram suspensos em 2012 e 2013; afinal só retornam, às pinguinhas, em 2015. Lembram-se do ministro Gaspar nos garantir que estaríamos em condições de regressar aos mercados no exacto dia 23 de Setembro de 2013? Pois lá vem o nosso-primeiro dizer que não é bem assim, que queria, mas não sabe se pode ser. E di-lo onde? - Não num legítimo debate parlamentar que tanto têm discutido economia e finanças, mas numa entrevista a um jornal alemão, terra da sua amantíssima líder, a senhora Merkel. A recessão é cada vez mais real. A economia definha de forma assustadora. As empresas fecham. O comércio não factura. Até nas lojas de produtos alimentares se sente a diferença. O desemprego galopa: para os jovens, o ministro Relvas desenvolveu uma iluminada estratégia de convertê-los, depois de formados, em emigrantes; já para os mais velhos… Os funcionários públicos estão na linha da frente dos prevaricadores a quem é preciso continuar a castigar. Cada medida é pior que a anterior. Sem aviso, foram agora proibidas todas as reformas antecipadas. Só no primeiro trimestre deste ano faliram mais pessoas que empresas: foram mais de 30 pessoas por dia. A este ritmo, rapidamente o Governo legislará para tirar aos falidos os mecanismos de compensação/recuperação de que hoje, apesar de tudo, ainda dispõem. E, como no caso da proibição de reformas, sem avisar. Tem contrato a termo certo? Pois fique sabendo que o patrão não precisa de avisar que o vai despedir, nem de lhe pagar qualquer compensação. Lembram-se do líder da oposição Passos Coelho defender os "acordos de trabalho de boca"? Aí está a versão melhorada. Está na moda a rescisão por mútuo acordo, que é mais ou menos uma forma do patrão aliviar a consciência e o trabalhador ficar no desemprego com a sensação que a alternativa seria ainda pior. Isto é uma pequena parte do que penaliza os portugueses. Entretanto chegou Abril e, deste lado, a Região começa a aperceber-se que vai sofrer ainda mais em consequência das medidas do Programa de Ajustamento Económico e Financeiro (PAEF) que os governos nacional e regional negociaram. Já ninguém acredita na competência do governo regional e do PSD para resolver esta gravíssima situação. Mas, ao menos, exigia-se um esforço, ténue, pequeno, mas um esforço que pudesse dar outra perspectiva e algum futuro. Porém, nada: a economia piora, a dívida no final do prazo do cumprimento do PAEF será ainda maior, o orçamento acumula défices, o desemprego sobe, a saúde piora. O dinheiro prometido ao abrigo do PAEF tarda. Da Lei de Meios pouco se sabe. Mas nada disto incomoda a governação e Jardim. O que é preciso é distrair o povo. E nada melhor que esta guerrazinha de baronetes e delfins, discutindo congressos e autárquicas a mais de um ano de distância. Não vemos discussão de princípios, de novas ideias, de novos valores. Vemos protagonistas. Albuquerque sente-se injustiçado. Mas não assistiu a dezenas de injustiças semelhantes, e esteve calado? Foi tratado de forma pouco digna? E quantas vezes fez precisamente o mesmo, só porque se tratava de pessoas da oposição? Fala de pluralismo e democracia. Soube durante todos estes anos o que isso era, para os que pensavam de forma diferente? Aliás, neste seu novo figurino, onde cabe a autocrítica devida a todos quantos ofendeu? Lembram-se, por exemplo por alturas do 20 de Fevereiro, do quanto atacou os 'teóricos de café' por ousarem discordar de sua excelência? Não haja ilusões: Albuquerque não é intrinsecamente diferente de Jardim. Dir-me-ão mais charmoso. Será; mas por isso mesmo mais perigoso. Alternativa? Sim, tem de ser encontrada, mas não passa seguramente por nenhum dos responsáveis políticos destes trinta e tal anos de governação insular. Aqui e em todo o lado, à esquerda são hoje exigidas novas responsabilidades - saber definir estratégias no combate ao neo-liberalismo e ao sistema de governação assente no rating, saber defender os princípios do Direito, saber repor a Autonomia, saber encontrar as novas emergências de esperança e de opções de felicidade. Salvo melhor opinião, não vejo outro caminho.

Violante Saramago Matos