Há coisas únicas nesta terra no Atlântico plantada. Coisas que acontecem aqui e em mais lado nenhum e os exemplos (bons e maus) não caberiam neste escrito. Mas, sem dúvida, que os comunicados ou direitos de resposta do Governo Regional e outras coisas rabiscadas a ódio na Quinta Vigia são uma dessas coisas especiais nas sua especificidade. Dignos de estudo, diria.

São de uma originalidade sem igual. Há, de facto, há de tudo. Desmentidos que não desmentem coisa nenhuma, desmentidos que se desmentem a eles próprios, desmentidos que afinal confirmam notícias. Pelo meio um chorrilho de acusações inenarráveis. A linguagem, então, é ímpar.

E passado uns anos, a pessoa habitua-se e já não se sobressalta por dá cá aquela palha. Até que a secretaria do Plano e Finanças lembra que, em matéria de comunicados, não está cá para a brincadeira. Pelo menos nisso, que a avaliar pelo que foi feito nos últimos anos em termos de contas públicas regionais, é natural que surjam algumas dúvidas e reservas.

E não é que da secretaria que deveria perceber mais de números e contas, recebe-se o mais literário, arrisco-me a dizer erudito mesmo, dos direitos de resposta? Estes senhores nunca nos deixam de assombrar quem os acompanha, ou, no dizer daquela secretaria, quem “esgravata” o seu trabalho. ‘Epíteto’, ‘leviendade’ e até estrangeirismos como ‘fait-divers’ – aquela expressão que ficou célebre na primeira edição do Big Brother por um concorrente que mais tarde apareceria nas listas do PSD candidato a alguma coisa – são algumas palavras com que o Executivo regional surpreendeu desta feita.

Mas depois do baque do palavreado inicial, percebe-se que afinal trata-se de mais do mesmo com uma linguagem mais polida. A secretaria contesta - como deve quando se impõe– uma notícia na qual o DIÁRIO denunciava discrepância de números do Plano de Ajustamento e do Orçamento Regional e considera que a confirmar-se trata-se de um buraco financeiro. O gabinete diz que não e, digo eu, só tinha que mostrar a sua razão. Mas não, a secretaria – a mesma que assistiu, participou ou foi permissiva com o despesismo que levou ao descalabro das contas públicas da Região a ao sacrifício de todos os madeirenses – prefere acusar a oposição e quem lhe dá a voz de “denegrir a imagem e credibilidade da Região Autónoma”.

Sempre originais. Então a comunicação social e a oposição é que têm culpa da falta de credibilidade da Região? Bem só se for o jornal gratuito mais caro do Mundo, cujos custos não abonam nada para o bom nome da honrada terra que o Governo Regional quer agora defender. Quanto à oposição, que me lembre, nunca foi Governo por estas bandas.

É uma pena que passado tanto tempo, tantos anos, a governação ainda tenha aprendido tão pouco de democracia. E lhe cause tanta confusão que a oposição faça o seu trabalho de fiscalização (com a demagogia que também lhe é inerente) e que a imprensa faça o seu trabalho de escrutínio (com os erros que também acontecem). Para a secretaria, o que está em causa é uma perseguição dos que não querem que a Madeira cumpra com aquilo que se comprometeu.

Tranquilize-se, senhor secretário, porque precisa de estabilidade para cumprir aquilo a que se comprometeu. E desengane-se, que não acredito que haja alguém de bom senso a torcer para o seu insucesso, que seria o fracasso de todos os madeirenses. O Governo Regional tem de cumprir, mas se não o fizer, terá de prestar contas. Uma coisa que, de facto, a democracia também ainda não lhe ensinou.