Aviso prévio: quem nunca pregou uma mentira na vida, o melhor é não continuar a leitura para além desta linha. Quem diz a verdade, doa a quem doer, não é digno desta crónica descomprometida, que pretende homenagear todos os que mentem nas mais diversas frentes. A mensagem é extensível mesmo aos que dão uma mentirinha piedosa ou para "safar a vida", como se costuma dizer. Mentirosos há para todos os gostos. O rol é infindável. Há quem "saque" uma peta para minimizar uma imprudência no trabalho, que acaba por não prejudicar ninguém. Há também quem insista em dizer que não mente, antes "omite" a verdade para não causar "estragos maiores". Mas há quem faça da mentira um estilo de vida, um ato contínuo. Mente-se quase como se respira. E aqui reside o busílis da questão. Tenho-me cruzado com tanta gente que mente à descarada diariamente, sobre todo e qualquer assunto. Normalmente para se evidenciar ou esconder faltas graves. De carácter. Há o mentiroso ocasional, o mentiroso profissional e o mentiroso compulsivo. Todos, no limite, acreditam que a "a sua mentira" - tantas vezes repetida - afinal é uma verdade inquebrantável. Há um género de mentiroso que me irrita particularmente: o que quer, com a sua argumentação falsa, me enganar, me driblar e me convencer de que afinal a "sua verdade" é pura e incauta. Ao longo do tempo vamos aprendendo a topar à légua os mentirosos que se cruzam nas nossas vidas. O velho ditado popular do mentiroso e do coxo não podia ser melhor prova. Estão em todo o lado: na família, no trabalho e nas instituições mais respeitadas e insuspeitas. Os políticos são por norma a classe mais castigada com este epíteto. Fazem por isso, diga-se a bem da insuspeita verdade. O que são quando prometem o que sabem não poder cumprir? Quando insistem na omissão continuada de factos que a todos dizem respeito? Quando negam, até à exaustão, verdades que nos entram pelos olhos adentro? Quando juram a pés juntos que os impostos não vão subir, que não haverá taxas moderadoras na saúde e que a educação para todos ainda é uma bandeira social? Não é a mentirinha ingénua, vulgar e simples que causa danos. É a pouco dignificante, perpetuada e elaborada mentira. É a que faz caminho, urdindo teias complexas. No caso dos nossos governantes, pior. Pagamos-lhes para nos mentirem! Ou para dizerem inverdades, como os atores do 'métier' gostam de qualificar eufemisticamente uma falsidade gigantesca. Hoje é o dia oficial da mentira. Desde tenra idade ensinaram-me que a mentira é filha do demo e que a verdade, essa palavra tão simples e virtuosa, é como o azeite e a melhor arma para passarmos bem nesta vida. De cabeça levantada. Estamos todos cansados de palavras bonitas, de jogos de intenções. De quase todos os quadrantes. Numa sociedade utópica, o dia das petas deveria ser o único em que todos poderiam mentir deliberadamente. Segundo diversos estudos, o ser humano mente que se farta. Seja intencionalmente, seja "deturpando" o que lhe convém. Fiquei atónito ao ler que, em média, cada indivíduo dá 200 petas por dia e uma por cada cinco minutos. Se numa criança a mentira faz parte do seu mundo e de uma normalidade fantasiosa, num adulto é capaz de o tornar num ser abjeto. Se fizer dela um estilo de vida. Artigo escrito de acordo com a nova grafia
Roberto Ferreira