1 de Abril, dia das petas, e há tanta coisa que hoje gostaríamos que, de facto, fosse mentira. Tanta coisa que gostaríamos que fosse brincadeira, pronta a ser desmentida.
Infelizmente, o que nos resta não é esse movimento que nos salvaria, mas uma geografia do medo e da incerteza que nos marca os passos e corrói a esperança.
Esta geografia, que se faz mapa concreto dos dias, desenhou-se ontem numa corrida desenfreada aos supermercados e bombas de gasolina. Um movimento estéril e inconsequente de quem tenta adiar o inevitável, de quem tenta ter ainda a ilusão de que poder alterar o futuro, enganar a certeza de uma carga fiscal impensável, injusta e que consubstancia um retrocesso naquilo que, até agora, serviu para diferenciar-nos tornar-nos menos ilha.
Com o número de desempregados a aumentar a um ritmo desolador, a ilha torna-se hoje mais distante de si mesma, mais distante de qualquer esperança.
A carga brutal de impostos que hoje cai em cima de todos os madeirenses, dos que podem e dos que não podem pagar, é quase uma traição, um murro no estômago, um golpe pelas costas quando estávamos distraídos a acreditar que o futuro era possível, que poderia ser melhor, que nos abrigaria como casa.
Não nos tiraram o tapete, fizeram muito mais do que isso. Tiraram-nos o chão, o lugar onde assentar os pés e os sonhos. O horizonte desfez-se e volta a ser sinal de partida para quem acreditou que poderia construir aqui um futuro. E não foram poucos. Compraram casas, sustentadas na vontade de ficar, sustentadas em empréstimos que duram uma vida, mas que, mesmo assim, estavam dispostos a pagar, até ao fim, para deixar aos filhos mais qualquer coisa: um chão onde assentar os pés e os sonhos.
E fizeram tudo isto porque acreditaram. Mas isso foi antes do murro, antes do golpe, antes da traição que nos derrubou e nos traz agora desesperados às filas das bombas de gasolina e dos supermercados.
O dia depois de amanhã, no entanto, vai deixar de ser véspera para ser essa coisa concreta que nos traz já derrotados por dentro.
Há uma geografia do medo que urge transformar de novo em esperança. Há um mapa que urge refazer, traçando novos caminhos e rumos. Há que devolver o chão a quem o perdeu. E isto não é mentira, é uma urgência. Precisamos urgentemente de um chão onde assentar os pés e os sonhos.