Sou levado em crer, muito por força de princípios ideológicos, que os governos nem tudo podem fazer pela economia. Fui beber esta ideia a economistas que acreditam que a intervenção do Estado não é neutra no pior sentido. Esta pode ser perigosa e levar-nos ao declínio. A nossa região já foi utilizada como exemplo em favor desta ideia; muito do investimento público feito na região constitui apenas um fardo financeiro, nem toda a obra teve utilidade social e humana. Mas a Língua Portuguesa oferece-me um outro conceito, o da temperança, e esta obriga-me a ser razoável, afinal não posso dizer que tudo o que vem do Estado é mau e conduz ao declínio. Sou obrigado a encontrar um modelo onde Estado e Mercado possam conviver. A economia é um sistema dinâmico onde a intervenção do Estado poderá ser bem vinda. A questão essencial é como moderar a actuação do governo, para que esta seja benéfica e producente. Começo por dizer que precisamos de políticos competentes, mas mais importante do que isto, precisamos de políticos que saibam lidar com o pluralismo e saibam o que significa temperança e moderação. Quando digo competência não me refiro somente á técnica, mas, essencialmente, á política. E competência política não se coaduna com o orgulho e preconceitos. Uma boa ideia poderá partir do agente mais inverosímil, seja este um partido da oposição, um adversário político ou pessoal, um jornalista, um empresário adepto dos ventos de mudança ou de um estranho estrangeiro. Não podemos estar sempre a dizer que as críticas de âmbito político são armas de arremesso de escopo pessoal. A economia sobrevive da competição, concorrência e do confronto. Mas isto não significa que diferentes agentes estejam sempre a competir. Muitas vezes, cooperar e ouvir os outros é o melhor caminho. Um político que não saiba lidar com isto, não merece ter responsabilidades políticas.

Bruno Afonso - Economista