Arte de furtar, livro anónimo, séc. XVII, atribuído a um padre jesuíta, contém descrições de manhas e sátiras sociais. Estas são algumas: Fidalgo esperto Um nobre, em Vila Viçosa, devia dinheiro a toda a gente, mas nunca faltava às festas reais, com fatos novos e sapatos a rigor. Os sapateiros, fartos de dívidas, recusaram entregar mais sapatos ao nobre, sem dinheiro na mão. Ao preparar-se para mais uma festa, o fidalgo mandou o moço ao sapateiro, para que pedisse "um só sapato à prova. Se gostasse, mandaria buscar o outro, com o dinheiro do par." - Um sapato levará, mas dois não os verá, sem pôr o dinheiro nesta banca. - diz o sapateiro. O fidalgo, na posse de um sapato, manda o moço a diferente sapateiro, com mesmo recado: pedir um sapato novo para o experimentar. Com este truque e um sorriso de orelha a orelha, o fidalgo participou na festa real, com sapatos novos, sem ter pago um tostão. Os sapateiros, mais uma vez, ficaram sem sapatos e sem o dinheiro. Empréstimo malicioso Um cidadão do Funchal pediu dinheiro para emigrar para o Brasil. Por azar, bateu à porta de um comerciante sem escrúpulos, que lhe disse: - O meu oficio é vender panos, não é emprestar dinheiro. Mas, posso dar-lhe um pano fiado, depois, vende e utiliza o dinheiro. - Aceito, pois, oiro é o que vale oiro - respondeu o madeirense. O comerciante, porém, diz, logo de seguida: - Para que se não canse de ir longe, compro-lhe já o pano pelo preço que o costumo comprar (ou seja, preço inferior). E, já agora - acrescenta - desconto os juros e despesas da fiança, que Vossa Mercê teria de pagar. Assim, já não tem de se preocupar com este encargo. Deste modo, o pobre madeirense apenas recebeu uma mínima parte do empréstimo, que teve de pagar, por inteiro, no ano seguinte. Dizem os jornais, que há bancos que emprestaram dinheiro para comprar ações do próprio banco. O dinheiro nunca saiu do banco e o beneficiário fica a ser, também, credor do dinheiro que é devedor. Tudo isto é legal e, pelos vistos, já é prática centenária. Remorso conveniente Um cobrador de impostos amealhou fortuna, desviando parte das taxas que cobrava pelo país fora. Já velhote, com profundo arrependimento, decidiu devolver ao Rei toda a fortuna furtada, antes que São Pedro lhe pedisse contas. O filho do cobrador, ao dar-se conta desta intenção, amarrou o pai em casa, não deixou que alguém se aproximasse e espalhou a notícia que o pai endoideceu. Deste modo, o filho conseguiu "salvar" a fortuna, que herdou!... Dizem que, mais tarde, o filho também se arrependeu, e até se confessou do mal que fizera, mas, só depois de ter gasto a fortuna roubada!... Casamento por interesse No tempo em que Herodes matou os inocentes, nasceu, algures, uma menina, a quem foi posto o nome de Ratione (que significa: Razão). Esta jovem não podia casar com qualquer um. Após muita escolha, foi encontrado o marido ideal: Erosídios (que significa: "Amor-próprio"), um rico homem de negócios. Deste casamento (entre a Razão e Amor-próprio), veio a nascer uma menina que, depressa, se tornou donzela e senhora, à qual passaram a chamar: "dona Política". Não sabemos qual a sua nacionalidade, mas, consta que deixou descendência, em todos os cantos do planeta!... João Luís Gonçalves, Procurador da República no Tribunal Administrativo e Fiscal de Loulé.

João Luís Gonçalves