Não faz muito tempo que me sugeriram a amizade como tema pertinente a explorar. No início considerei que, sendo este um espaço dedicado ao desporto, não faria muito sentido até porque, apesar de não ser o mais correcto, a verdade é que as diferenças e o fervor clubista levam, quase sempre, à angariação de um número considerável de pessoas que não queremos como amigos. Pensando melhor naquelas palavras e tendo em conta o contexto em que surgiram, decidi aceitar a sugestão e explorar por que razão se diz que cada um mostra aquilo que é pelos amigos que tem. No passado dia 15 recebi um convite dizendo que 'no sentido de ajudar o nosso amigo com os 900€ que tem para pagar, venho pelo presente solicitar uma pequena contribuição de forma a evitar que tenha de cumprir 18 meses de prisão por uma agressão a lampiões (…) Se a nossa família é sagrada, eis a oportunidade de demonstrá-lo'. Podem, agora, pensar que fui vítima de burla mas na verdade não fui. Este rapaz, amigo do meu amigo, alegadamente incendiou as bancadas do Estádio e o apoio dos amigos parece ter sido fundamental para não cumprir o castigo que, na minha opinião, seria o mais apropriado. Perante o cenário subscrevi La Fontaine acreditando que é preferível um inimigo sábio do que um amigo ignorante e, como tal, a minha contribuição foi nula, em termos monetários. Este episódio faz-me acreditar que enquanto não ajustarmos os castigos aos actos dos inúmeros agentes desportivos sejam eles adeptos, jogadores, árbitros ou dirigentes o mundo desportivo continuará a assistir a episódios de violência gratuita, a ameaças, a agressões diversas, à descriminação, à destruição do património, à tendência de jogadores e treinadores exigirem satisfações aos árbitros no decorrer do jogo, a simulações e à corrupção. Neste mundo complexo e volátil bons valores têm que ser cultivados mas aqueles que mais exigem a verdade desportiva são os que mais a corrompem.

Andreia Nascimento - Directora de comunicação