Fico incomodada quando leio ou ouço frases feitas, nem gosto de textos carregados de citações como se pensássemos todos pela cabeça dos outros. Bengalas, disponíveis on line, por vezes desconcertantes, que ajudam a esconder a verdadeira ignorância. Está na moda lembrar o que outros afirmaram. E como sou ignorante, gosto de estar na moda, sou incoerente e irrito-me comigo própria, vou escudar-me em Fernando Pessoa para falar na "Inutilidade dos Sindicatos". E não julguem que vou dizer se concordo ou não. Não preciso. Vou fazer copy/paste. Ei-lo! "A sindicação, saída da liberdade como o monopólio espontâneo, é igualmente inimiga dela, e sobretudo das vantagens dela; é-o com menos brutalidade e evidência e, por isso mesmo, com mais segurança. Um sindicato ou associação de classe - comercial, industrial, ou de outra qualquer espécie - nasce aparentemente de uma congregação livre dos indivíduos que compõem essa classe; como, porém, quem não entrar para esse sindicato fica sujeito a desvantagens de diversa ordem, a sindicação é realmente obrigatória. Uma vez constituído o sindicato, passam a dominar nele - parte mínima que se substitui ao todo - não os profissionais (comerciantes, industriais, ou o que quer que sejam), mais hábeis e representativos, mas os indivíduos simplesmente mais aptos e competentes para a vida sindical, isto é, para a política eleitoral dessas agremiações. Todo o sindicato é, social e profissionalmente, um mito. Mais incisivamente ainda: nenhuma associação de classe é uma associação de classe. No caso especial da sindicação na indústria e no comércio, o resultado é desaparecerem todas as vantagens da concorrência livre, sem se adquirir qualquer espécie de coordenação útil ou benéfica. O carácter natural do regíme livre atenua-se, porque surge em meio dele este elemento estranho e essencialmente oposto à liberdade. A vantagem pública da não elevação desnecessária de preços desaparece por completo, pois por haver sindicato, é fácil a combinação e a "frente-única" contra o público e, por esse sindicato ser tirânico, é fácil compelir à aceitação de novas tabelas os profissionais pouco dispostos a aceitá-las. Quanto ao aperfeiçoamento dos serviços comerciais ou industriais, que a concorrência estimula, o sindicato diminui-o na própria proporção em que diminui o espírito de concorrência e, como nunca é dirigido por grandes profissionais, mas por políticos de dentro da profissão, pouco pode animar directamente a técnica da indústria ou do comércio que representa. Nem resulta da acção do sindicato qualquer coordenação útil que compense estas desvantagens todas. Não tendo uma verdadeira base de liberdade, o sindicato não coordena a classe como indivíduos; não tendo nunca uma direcção profissionalmente superior, o sindicato não coordena a classe como profissionais; não tendo outro fim senão o profissional e o económico, o sindicato não coordena a classe como cidadãos". Não fui eu que disse. A opinião não é minha. É de Fernando Pessoa, in 'Ideias Filosóficas'. Houve aqui um aproveitamento de sinergias entre o meu copy/paste e o poeta. Explorei o senhor. Os sindicatos são cada vez mais necessários mas passaram a ser vítimas do seu próprio sucesso. Têm dificuldade em responder às mudanças do tecido produtivo na economia e na sociedade e querem-se, sobretudo, independentes do poder político e autónoma dos partidos.

Lília Bernardes