É possível inverter a curto prazo uma taxa de desemprego de 15% e que na prática se traduz na existência de 21.000 desempregados? Pergunto, a mim mesmo, alvitrando a resposta: não. A curto prazo penso que não, uma vez que a dinâmica económica criadora de empregos continuará indisponível nos próximos meses - infelizmente - perante a investida paulatina de um fenómeno que de resto tem uma trajetória de longo prazo consolidada. Mas pergunto-me também se a alternativa, face à inevitabilidade dos altos níveis de desemprego, não será reforçar as condições que permitam às gerações mais novas, ambicionar, legitimamente, ter melhores índices de empregabilidade no futuro, visto que a criação de novos empregos estará muito dependente das soluções que elas próprias forem capazes de gerar. Num quadro de profunda reconfiguração da sociedade e com a reengenharia do Estado em marcha, entre nós, é de esperar que o emprego seja cada vez mais um assunto para os empregáveis e não tanto para os desempregados ou uma tarefa do Estado-empregador. Poucas alternativas restarão aos empregáveis, neste cenário de mudanças, a não ser perceber quão importante é adquirir e reforçar permanentemente os conhecimentos e as competências - específicas e diferenciais! - que incrementam a iniciativa individual e permitem melhorar a empregabilidade, face às exigências de um mercado de emprego em aparente metamorfose vitalícia. Assim, dando por adquirida a transformação que está a decorrer e a subsequente mudança de paradigma no acesso ao emprego, importará então discutir e (se possível) compreender, de maneira tão explícita quanto possível, de que tratamos quando falamos em empregabilidade? Em primeiro lugar, falar de empregabilidade implica que se considere a existência de diferentes componentes em jogo, tais como a noção de carreira individual, a capacidade pessoal de adaptação face ao contexto e a posse/acumulação de capital humano e social. Sem empregos disponíveis para todos ou para toda a vida, é importante reconverter a terminologia e falar de empregabilidade nestes termos; e de como tal condição traduz - fundamentalmente - a imprescindibilidade de os indivíduos se adaptarem sistematicamente perante as intermináveis oscilações laborais, que procuram satisfazer a economia, mas tendo em conta uma particularidade assinalável: os indivíduos passaram a ser os principais responsáveis pela sua própria adequabilidade e imprescindibilidade laboral. Mais ninguém… É duro, diria mesmo, muito duro, mas para já não estão disponíveis outras alternativas. Face ao exposto, o desenvolvimento das capacidades relacionais que favorecem a adaptação a contextos voláteis e, paralelamente, a mobilidade entre postos de trabalho, espaços geográficos e entidades organizacionais são fundamentais e assumem-se como atributos dos indivíduos com melhores índices de empregabilidade. Basicamente, ter um bom índice de empregabilidade é sinónimo de ter capacidade para aumentar significativamente as probabilidades de emprego, embora melhores índices de empregabilidade não garantam automaticamente acesso aos empregos disponíveis. Infelizmente, por contraposição, o baixo índice de empregabilidade segue uma lógica equiparável, embora com um significado inverso: a baixa empregabilidade significa uma reduzida probabilidade na obtenção de emprego. Quando no início deste artigo comecei por referir que haverá pouco a fazer a curto prazo, atendendo aos números e à estrutura do desemprego regional, que se inscreve numa tendência com 10 anos - recorde-se que em Março de 2002 existiam 4.000 desempregados, menos 17.000 do que na presente data - tinha em mente os condicionalismos de empregabilidade que afetarão parte substancial desta população atualmente desempregada, que tem 55% dos indivíduos com um nível de instrução máximo ao nível do 2.º ciclo do ensino básico. Portanto, parece-me plausível considerar que uma parte significativa destes desempregados estará condenada a transformar-se em população ativa em situação de desemprego estrutural, com todos os custos daí decorrentes, apesar dos descontos que façamos por conta das migrações, da mortalidade ou da transferência operacional para a denominada economia informal. Em suma, os níveis de desemprego atuais carecem de fortes medidas de reforço nos domínios do eixo educação-emprego, sem as quais as gerações mais novas dificilmente alcançarão melhores índices de empregabilidade. As medidas de reforço equacionáveis estarão sobretudo relacionadas com o acesso universal à instrução e a melhoria drástica das competências, mas tendo sempre em plano de fundo o incremento das competências diferenciais. Sem melhores níveis de instrução e sem o forte desenvolvimento equitativo de competências específicas e diferenciais, dificilmente, teremos melhores índices de empregabilidade.
Ricardo Fabrício