"Se eu te disser ao ouvido Que o fado me tem pedido Para ninguém o cantar, Por favor, guarda segredo Porque o fado está com medo Que alguém o queira matar (…) E depois o fado diz Que não pode ser feliz Na boca de toda a gente E que talvez a meu lado Possa voltar a ser fado Como era antigamente" * Caros leitores, permitam-me começar pelas apresentações: o meu nome é Fado, e pedi ao DIÁRIO a cedência desta página por um dia, para reclamar da forma como tenho sido tratado pelos madeirenses nos últimos tempos. O meu protesto já estava pensado há mais tempo, mas desde que fui considerado Património Cultural Imaterial da Humanidade pela comissão de peritos da UNESCO tenho andado numa roda-viva, e o tempo tem sido escasso perante tantas solicitações. Agora sou importante, mas há quinze ou vinte anos não era bem assim. Havia muitos que, em tom pejorativo, afirmavam que não era típico do Algarve nem dos Açores, do Minho nem da Madeira, mas apenas uma Canção de Lisboa. No entanto, já havia quem me ouvisse no Japão ou nos Estados Unidos e me chamasse Música do Mundo. De facto, por esses anos eu estava praticamente relegado aos bairros típicos de Lisboa, assíduo e acarinhado em muitas tasquinhas e colectividades, mas arredio das zonas nobres e das classes média e alta, onde era pouco ouvido, raramente cantado e quase em segredo apreciado. Depois dum período de ouro em que Amália Rodrigues levou o meu nome a todo o Mundo, chegaram esses anos tristes em que as referências maiores estavam há muito longe do seu auge, as novas gerações não se reviam no Fado e não surgia sangue novo. Foram tempos em que parecia que o Fado caminhava para a decadência. Cá na Madeira o panorama não era muito melhor: uma maioria indiferente ou pouco interessada, uma minoria de apreciadores e um pequeno grupo de indefectíveis, onde se incluíam alguns músicos e intérpretes talentosos, mas sem horizontes para difundir a sua arte. Aos poucos este estado de coisas começou a mudar, até chegar aos dias de hoje: quase toda a gente se gaba de que ama o Fado desde a mais tenra infância, e passei a ser "bem" e a estar na moda. Disso até não me queixo. O meu lamento vai para o caminho tão estranho que tem vindo a ser trilhado pelos madeirenses, no que ao Fado diz respeito. Em Lisboa, e um pouco por todo o País, têm surgido nos últimos anos dezenas de novos intérpretes de Fado com uma qualidade acima da média, quer seja na voz, quer na viola e na guitarra. Muitos desses novos valores têm gravado os seus trabalhos em CD com relativa facilidade, frequentemente atingem os Top's de vendas, são convidados para espectáculos televisivos, fazem "tournées" internacionais que no passado só eram concebíveis para os artistas pop ou pimba. Quem não conhece nomes como Mariza, Camané, Mafalda Arnauth, Mísia, Ana Moura ou Carminho, para referir apenas alguns dos mais óbvios. Mesmo os que não chegam à fama têm um elemento em comum - a qualidade. E na Madeira, o que se passou entretanto? Uma regressão! Por cá a moda pegou pelo pior lado, o da facilidade. Em vez de haver uma triagem, um crivo, uma separação entre o "trigo e o joio", o que acontece é um vale tudo que não dignifica ninguém. Qualquer tasco organiza "Noites de Fado", qualquer "nabo" assassina temas nobres na viola ou na guitarra, qualquer cantor de chuveiro se intitula "fadista". Não estou a referir-me a um jantar de amigos ou festa popular em que se toca e canta à desgarrada. Critico sim os muitos "pára-quedistas" que estão a sujar o meu bom-nome, e mais grave ainda, a pôr em causa as pessoas desta terra que se dedicam há décadas àquilo que consideram uma forma de arte. É que ainda cá há quem saiba o que faz, com critério e qualidade, quem se dedique todos os dias a ensaiar, a preparar um bom trabalho para apresentar a locais e turistas. Mas quando essas pessoas começam a ser esquecidas e postas de lado, precisamente por até já haver quem se ofereça para cantar, podemos estar a caminho do fim. Por isso vim aqui hoje fazer este alerta. Digam não ao "Fado-Karaoke". Quero que toda a gente me ouça, mas não quero estar "na boca de toda a gente". * "Na Boca de Toda a Gente" - Letra de Tiago Torres da Silva, música de Daniel Gouveia.
Raul Ribeiro