O governo da Irlanda está a ser louvado por diversos quadrantes enquanto farol da democracia, pois irá realizar um referendo sobre o novo Pacto Fiscal europeu. "Dar-se-á ao povo a oportunidade de reafirmar o compromisso irlandês relativamente à participação no euro", afirmou o primeiro-ministro Enda Kenny. Traduzindo para linguagem corrente: Eleitores, não saiam das mesas de voto até darem a resposta certa. Na realidade, e subvertendo todo o valor de um referendo, essa "oportunidade" só é políticamente válida se a resposta ao referendo for positiva. Será o 5º referendo irlandês sobre a Europa no espaço de 11 anos, e no caso da opção negativa vingar, repetir-se-ão os vaivéns políticos irlandeses aquando da ratificação dos Tratados de Nice e de Lisboa. Quando elegemos governantes fazemo-lo (ou deveríamos fazê-lo) com base nos seus manifestos, na sua ideologia e no seu historial, sabendo que ao longo do seu mandato certamente encontrarão desafios para os quais não têm guião pré-preparado. É impossível referendar todos os imprevistos históricos, pois colocariamos em cheque o investimento democrático (e não só) nos nossos parlamentos. Será legítimo referendar a austeridade, especialmente quando esta também é uma consequência das nossas escolhas eleitorais colectivas do passado? Este referendo irlandês nada mais oferecerá que um boletim de voto monocromático. E uma ausência de verdadeiras opções estrutrurais não é democracia; é simplesmente uma miragem ilusória.
Rubina Berardo, Economista