Conta-se que um velho sacerdote, literalmente viciado em pregar sobre o pecado e a confissão, tendo chegado o dia da festa litúrgica de S. José, e não sabendo sobre o que falar deu início ao sermão desta maneira : "Meus irmãos, S. José, como sabeis, era carpinteiro, como tal fazia confessionários, falemos então da confissão". Na verdade, chegados que são estes dias que assinalam alguma coisa corremos sempre risco de repetir, as mesmas ideias, frases e palavras. É claro que isso não importa quando se trata da manifestação do afeto dos nossos filhos por nós. Faz-nos bem ouvir as mesmas coisas, até porque há muitas nuances de ano para ano a começar pela idade deles, o que imaginaram oferecer, dizer ou fazer neste dia. As mesmas ideias, frases e palavras vão ganhando contornos diferentes. Tentando, também eu, evitar o risco de dizer mais do mesmo, sabendo, contudo, que dificilmente o conseguirei, vou tentar ver este dia como o Dia dos Filhos. Esta é a condição com que todos nascem. Há os filhos desejados e os que o são por acidente; os que têm pai e mãe à espera deles e os outros que nem por isso; há os filhos de pai incógnito e os que são abandonados pelas mães; os que ficam órfãos à nascença e os que serão adotados; os ditos normais e os deficientes; os sossegados e os que passam as noites a berrar; os que comem tudo e os não comem nada; os que vendem saúde e os que estão sempre doentes; os que tem bom feitio e os que o não têm; os que se tornam bons alunos e os que não acertam com nada; os que passam e vencem os problemas da adolescência e os que nunca saem dela; os que sabem o que querem e os que andam a vida toda à procura da rolha; os que aprendem a fazer opções e os que vivem da incerteza, os que se tornam adultos equilibrados e os que nunca se endireitam e claro também há os que se tornam um dia pais! Em qualquer situação destas há um pai que lhes corresponde. Um pai presente, ausente, amigo, distante, severo, desligado, autoritário, desautorizado, inteligente, pouco esperto, manipulador, manipulado, humilde, orgulhoso, esforçado, desleixado, dialogante, ditador, criativo e também há os que não sabem que são pais...! E não se trata aqui, tão pouco, de dizer que uns são bons e outros não, até porque é frequente o mesmo pai ter filhos bem diferentes e isto deita por terra o dito popular tal pai, tal filho. A realidade é bem mais complexa. Certo é que todos temos a condição de filho e alguns têm a condição de pai porque tal lhe foi dado pelos filhos. Daí que faça algum sentido dizer que este é o Dia dos Filhos pois são eles que fazem de nós pais. Os filhos mudam a nossa vida, fazem-nos questionar os nossos projectos, o que pensamos, o que queremos, que objectivos, que metas, que causas… eles dão-nos a oportunidade de deixar de pensar no nosso umbigo, de aprender o valor da renúncia e do sacrifício e de ser capazes de vencer todas e mais algumas dificuldades… por eles. Pode dizer-se que um filho nos ensina a viver, o valor da vida e ajuda a descobrir algum sentido para a nossa existência porque mesmo quando nada parece valer a pena, por eles e neles encontraremos razão, motivação e força para continuar a lutar pela vida, sem no entanto fazer deles nossa "propriedade". Este é um dos grandes perigos de ser pai e porventura um dos que pode ser mais prejudicial para os filhos. Hoje é dia de S. José, e não falando da confissão, confesso que nele me impressiona o silêncio, espaço/tempo onde se jogam as decisões perante as incertezas do que será melhor. Ele viu a sua noiva grávida, antes do casamento, foi chamado a acreditar na "impossível" obra do Espírito Santos, a enfrentar o olhar desconfiado dos amigos e vizinhos, a sujeitar Maria à possibilidade ser apedrejada conforme a lei de Moisés, a criar um filho como sendo seu sem nunca saber ao certo de quem seria porque não há fé sem dúvida. O Evangelho deixou-nos pouco mais que o seu silêncio. Mas sabemos que com este silêncio Jesus se fez um homem. E como é difícil fazer silêncio. Falamos de mais, queremos ensinar tudo, dizer o que está certo e o que está errado. Queremos ter sempre razão, nunca dar o braço a torcer, demonstrar força e esconder as fraquezas. Discutimos com eles de igual para igual sem nos apercebermos que eles nos vencem porque fazem as perguntas às quais não queremos responder ou simplesmente não sabemos responder. Quantas vezes perdemos a oportunidade de estar calados, quantas vezes o silêncio nos teria salvo de situações delicadas. A autoridade tem que ter sempre a última palavra nem que seja à custa de uma alteração da voz ou um murro na mesa. Só que isto é autoritarismo que nos desautoriza perante os filhos. Fazer silêncio ou quebrá-lo na hora certa é um dos grandes desafios de ser pai e o risco de errar é sempre grande. É tão importante um filho pedir desculpa a um pai como um pai pedir perdão a um filho. Com isto ele aprenderá mais sobre o assunto do que com muitas palavras. O silêncio apela ao exemplo. Obrigado às minhas filhas por me terem dado a possibilidade de ser pai, por tudo o que tenho aprendido com elas e por elas.
Paulo Santos