Padre José Martins Júnior À interrogação do título, propositadamente provocatório, responderei que sim, apondo-lhe uma outra resposta sinónima: Deus no casino. Foi o que aconteceu na semana passada. O já nosso conhecido Pe Prof. Dr. Anselmo Borges apresentou o novo livro "Corpo e Transcendência", precisamente no Casino da Figueira da Foz, cujo convite penhoradamente registo. A curiosidade do leitor foi exactamente a minha, quando quis saber do próprio director, Dr. Domingos da Silva, "como concebe esta contradição de servir a investigação teológica à mesa de um casino", logo me esclareceu "não ser esta a primeira vez que tal acontece" sob a sua presidência, fazendo ainda questão de lembrar as famosas "Conferências do Casino" de 1871, em Lisboa, onde a prestigiosa "Geração de 70" fez surgir a Ideia Nova precursora do novo século. O que se viu na távola redonda daquele salão centenar foi um genuíno fórum ecuménico para aceder a este mistério intraduzível que cada um de nós transporta no terro do quotidiano: a contraditória simbiose da matéria-espírito à procura do vértice, do "ómega" teillardiano focalizado na Divindade. Disse "fórum ecuménico", em virtude do elenco que o Prof. Anselmo Borges congregou, desde a reconhecida confessionalidade católica do Prof. Daniel Serrão e Frei Bento Domingues até ao racionalismo agnóstico do Prof. Pacheco Pereira e Carlos Magno, jornalista, este na condição de moderador do debate. Aliás, esta busca militante da Verdade verificou-se, um dia antes, na livraria "Almedina", Lisboa, onde o mesmo friso qualitativo esteve representado pelos Prof's. Adriano Moreira e Isabel Magalhães e, nos antípodas, o Prof.José Barata Moura. Da volumosa soma de conhecimentos produzida pelo Autor e por tão avalisado leque de participantes o que mais fundo ficou naquela assembleia foi, em primeiro lugar, a transparência crítica do Prof. Anselmo Borges, a corajosa humildade de pôr o seu livro em "hasta pública" para ser desdobrado, louvado ou censurado por quem pensa livremente. Em segundo lugar, o respeito mútuo pela diversidade de pensamento, a cautelosa "dúvida metódica" na procura da Verdade, sempre inacabada, enfim e o mais importante, o desejo de percorrer as 586 páginas de "Corpo e Transcendência". Apreciei particularmente a abertura de espírito do Prof. Daniel Serrão, tido publicamente como cientista de pensamento rígido, mas ali tão justo e tão humilde, quando, após o debate e a uma questão que lhe pus, responde prontamente: "Se me perguntar se eu sou católico, digo "Hoje sou, amanhã não sei se serei". Trago esta compartilha aos leitores do DN que entendem que o conhecimento científico (também o conhecimento teológico!) cresce em espiral, contra o dogmatismo dos que ilegitimamente se arvoram em baluartes inamovíveis de certezas que nem conseguem provar, arregimentados apenas no bastão de uma pseudo-autoridade dominante, de alto a baixo, na ilha. Este "Deus no casino da Figueira" veio abrir clareiras por sobre argamassas betuminosas de obscurantismo religioso, pregações incultas, rituais quase esotéricos, doentios, que roçam o fetichismo e com os quais, à sombra de um suposta religiosidade, se mata a espiritualidade do povo ilhéu e se lhe dificulta o acesso à verdadeira transcendência, a partir da imanência do seu corpo vivo. Venha de novo até nós, Prof.Anselmo Borges!