Começo este texto com dois pressupostos: as elites existem e têm uma função social. Perdoem-me os sociólogos e outros cientistas sociais pela simplificação. Acrescento que existem diversas elites, excluindo assim a possibilidade de acusarem-me de estar a falar exclusivamente de políticos. Apesar disto, parto do princípio que as elites tem acesso ao poder. E digo mais, as elites são o poder. Ninguém duvida que existem canais privilegiados de acesso directo ao poder. E é ingénuo supor que nestes círculos de acesso ao poder, nestas cumplicidades informais, nestes jogos de influência, discutam-se, apenas, problemas como o crescimento galopante do desemprego, a falência de empresas, a debilidade económica, a diminuição do bem-estar e da qualidade de vida de muitos madeirenses, enfim, o nosso futuro colectivo. Quero apenas alertar que deveria-se começar a discutir estes assuntos com maior seriedade e eficácia. Poderia apontar o argumento ético: a função das elites é preservar a ordem, a coesão social, e bater-se por padrões mínimos de dignidade e bem-estar para todos os cidadãos. Mas esqueçamos a ética. A ética é coisa de ingénuos e líricos (como eu) e não enche barriga. O outro argumento que tenho é mais mundano, mas, talvez, mais eficaz. É o argumento do interesse-próprio. As gritantes desigualdades sociais e empobrecimento generalizado da população gera, naturalmente, grande ressentimento. O ressentimento é um sentimento perigoso, pode conduzir ao ódio e ao caos. A miséria instiga sentimentos primários e promove a criminalidade. A injustiça social puxa a sociedade para a lama, acabando esta por sujar a cara até dos mais favorecidos. Para sua própria segurança e manutenção do seu estatuto social e económico, as elites devem agir activamente para prevenir o descalabro. Minhas senhoras e meus senhores, a mensagem deste texto é simples, ou mexem-se para resolvermos os nossos assuntos, ou deixem outros mexer-se. Se não acreditam nisto, vejam a História. Ela proporciona bons exemplos do que acontece a elites inúteis.
Bruno Afonso