Se continuamos a afirmar que a educação é um dos pilares fundamentais de qualquer plano de investimento nas pessoas é então necessário reforçar aquilo que, neste processo, não devemos mudar. Desde logo, a educação reclama o espírito de liberdade (de pensamento e de expressão), como garantia da qualidade do ensino. As escolas devem, por isso, manter-se livres, mesmo quando são pressionadas por forças e tendências dos mercados ou interesses de determinados grupos da sociedade. Essa liberdade significa, em muitos casos, libertação de barreiras, de amarras, de constrangimentos, de entraves à dinâmica inovadora, de críticas destrutivas e infundadas da mera oposição. Este espírito de liberdade é condição imprescindível para o emergir da criatividade o que implica, por vezes, romper com o normativo, com o previamente definido, com o tradicionalmente convencionado e lançar-se num horizonte de mudança, capaz de responder aos desafios de hoje numa perspectiva de futuro. Fica então claro que este espírito de liberdade constitui um dos alicerces da educação que não podemos pôr em causa sob pena de colocar todo o edifício educativo em grande perigo. Outro dos aspectos mais falados e defendidos ao longo dos tempos em relação à educação é, sem dúvida, a autonomia. Trata-se de falar de um poder originário e de uma qualidade definidora do processo educativo e da própria escola, que corresponde, em primeiro lugar, ao sentido de responsabilidade pelas decisões tomadas. Assim sendo, há uma proporcionalidade nesta relação, isto é, quanto mais autonomia mais responsabilidade. Falar de autonomia implica, também, a presença da descentralização enquanto processo que não se pode reduzir apenas à gestão meramente administrativa do sistema educativo ou à introdução de uma ou de outra disciplina no currículo escolar. É necessário ultrapassar o excessivo controlo tutelar e centralizador que asfixia qualquer iniciativa particular e apostar em respostas educativas à medida das realidades e das necessidades locais. É imperioso que as escolas assumam a liderança do processo educativo em conjugação (não na dependência) com o poder da entidade tutelar. Deste modo, o investir nas pessoas passa por lançar, com coragem, ousadia e determinação, uma arrojada proposta educativa que, assente numa plataforma inovadora e criativa, seja, ao mesmo tempo, expressão do verdadeiro desenvolvimento humano e afirmação de uma matriz estratégica capaz de abrir o caminho do futuro. É evidente que se forem despojadas da sua autonomia, as escolas tornar-se-ão um espaço virtual, uma realidade sem substância, um conceito sem conteúdo e sem pessoas. Ora, como sabemos, são cada vez maiores as ameaças à autonomia que pairam no ar, umas bem evidentes, outras mais camufladas. No actual contexto de grandes constrangimentos financeiros é necessário que a situação real das escolas seja seguida com muito cuidado e atenção evitando que estas sejam "obrigadas" a venderem a sua autonomia para poderem sobreviver. Queremos acreditar que todos aqueles que sempre foram defensores da Autonomia Regional, melhor que ninguém saberão defender e desenvolver a autonomia do processo educativo e das escolas. Nesta opção pela autonomia está certamente a chave para abrir o futuro às gerações do presente e às que aí vêm.
Marco Gomes