A Guiné-Bissau foi um dos primeiros países que aprendi a identificar no mapa gasto e rasgado que havia na escola primária dos Lameiros, em São Vicente. Se fizer um esforço para recuar, chego a patéticas cantilenas como esta: "O pretinho da Guiné lava a cara com café, tem vergonha de ir à missa com sapatos de cortiça." Ouvi falar na guerra colonial. Quem não ouviu? Após anos de publicidade negativa, uma criatura chega à Guiné-Bissau e só pode ter uma deliciosa surpresa: ao invés da hostilidade esperada, a amabilidade espelhada nos gestos dos habitantes de Bissau ou de fora dela. Depois, vem a sensação de que algo correu mal nas aulas de História do ensino básico e secundário. Era obrigatório saber que Álvaro Fernandes desembarcara em 1446. Falava-se um bocadinho nos "lançados" - excluídos de vária ordem, sobretudo cristãos novos e cabo-verdianos, que tinham de se integrar nas comunidades locais para facilitar o comércio. E falava-se nos fortes construídos em zonas costeiras, aparentemente sem deixar claro que neles se esgotava a presença portuguesa. A Convenção Luso-francesa (1886) e o ultimato britânico (1890) eram matéria de teste. Aprendia-se que, por essa altura, Portugal avançava para o interior, não fossem outros europeus tomar conta dos "seus" territórios em África, mas não se explicava até onde se tinhaconseguido ir. Nós, os portugueses, éramos os maiores, tínhamos dado novos mundos ao mundo. Não. A vida não me preparou para encontrar na Guiné-Bissau apenas alguns edifícios públicos e restos de sítios de funcionários ou militares portugueses. O Português, sendo língua oficial, é língua estrangeira que só alguns falam. Onde estão os tão apregoados cinco séculos de História? No Gábu, Província Leste, um homem prepara uma tese curiosa: o colonialismo português nunca existiu. A Guiné Portuguesa foi uma colónia de ocupação, não de povoamento. Essa ocupação conheceu pouquíssimos anos de tréguas. E ainda hoje é diminuta a população portuguesa residente. Alguns moram no Coimbra Hotel & SPA, mesmo em frente ao restaurante Porto, que apesar do ar quente e húmidode Bissau serve feijoada à transmontana e outros inapropriados pratos típicos portugueses. Do hotel já partem pequenos grupos de portugueses para antigas zonas de guerra, como Guiledje, na fronteira com a Guiné-Conacry. É um curioso turismo de saudade que parece despontar. Mas não faltam razões para ir à descoberta desse território a que estamos tanto e tão pouco ligados. Há o Parque Nacional de Cantanhez; a Reserva Natural dos Tarrafes do Rio Cacheu; o Parque Natural das Lagoas da Cufada; o arquipélago dos Bijagós, Reserva da Biosfera, habitat de raríssimas espécies.

Ana Cristina Pereira