1 - A Madeira bateu no fundo, mas a culpa não é de quem a afundou. É dos outros. É do Sócrates, do Carlos César e dos membros do actual Governo nacional indicados pelo CDS. Talvez alguns do PSD também sejam chamados a contas, mas poucos. Até Passos Coelho e Vítor Gaspar já passam ao lado da dura austeridade que estamos a experimentar e que vai agravar-se significativamente daqui a duas semanas. Mas a culpa é deles. Dos governos de Lisboa, dos políticos europeus, dos senadores americanos, dos chineses. A culpa vem essencialmente de fora, mas esta semana ficamos a saber que cá dentro também há culpados. Mas não são os que nos governaram nas últimas três décadas, nada disso! A culpa regional é dos partidos da Oposição, que nunca governaram coisa alguma, que nunca foram tidos nem achados nas grandes decisões, que nunca viram aprovadas propostas que podiam ter mudado o rumo desta terra. E depois da Oposição, os outros culpados são os 'mercenários' da comunicação social. Esta é, resumidamente, a teoria do partido que suporta o governo-que-não-tem-culpa-de-nada. Aqueles que enriqueceram à custa do sistema, que conduziram o governo atrelado a camiões-betoneira, que passaram financeiramente do 8 para o 88, são os mesmos que chamam mercenários a quem trabalha e comete o crime de discordar. Este governo-que-não-culpa-de-nada vem defendendo outra teoria interessante, bastante simplista mas suficientemente forte para enganar quem gosta de se deixar enganar. Essa teoria baseia-se nisto: é verdade, temos dívidas, mas também temos obras. E património! Que rico consolo. É mais ou menos como aquela frase que o povo ouve dos caloteiros: "Devo, não nego e pago quando puder". Com uma enorme diferença; o Governo admite que deve, sublinha que tem obra, mas também assume que são os madeirenses que a vão pagar. Já agora, de que nos serve algum desse património? Por acaso conhece o Leitor alguém que esteja interessado em comprar uma amostra de via expresso chamada Cota 500? Um heliporto que não funciona? Uma marina sem barcos? Auditórios às moscas? Se conhece, informe o Governo que eles não sabem como rentabilizar esse património. E aqui chegamos àquela fase infantil de empurrar o colega, fazê-lo cair e apontar o dedo ao outro, o que estava sentado e quieto a um canto. A questão que se coloca é igualmente simples: quantos madeirenses se contentam em estar sentados e quietos a um canto nas últimas décadas? Infelizmente, a maioria! 2 - Independentemente de se concordar ou não com o que diz D. Teodoro de Faria, é da mais elementar justiça reconhecer a importância das suas declarações. Num tempo como o que vivemos, é bom saber que que há mais Igreja para além dos sorrisos vazios e dos silêncios cúmplices. Que há mais gente atenta, embora discreta. Que não têm de ser sempre os mesmos padres a assumir as críticas, mesmo que sejam as mais puras verdades. Afirmar que "basta ter os olhos abertos para ver pobres" é perfeitamente natural para quem desce de um qualquer pedestal. Mas numa Região como a nossa, onde se vive mal com opiniões diferentes, essa frase dita por quem comandou a Diocese do Funchal durante anos ganha uma força brutal. O mesmo quando reconhece que fica angustiado com o desemprego, ou quando agradece a Deus por já não ter o problema do Jornal da Madeira, ou quando lamenta que há muitos caixões e poucos berços. Estas frases são apenas algumas de um vasto conjunto de declarações que certamente incomodam um poder instalado, não apenas no Governo ou na maioria, mas também na própria sociedade. Ajudam, espero eu, a despertar o sentido crítico que anda muito por baixo. Pelo conjunto da entrevista, vale bem a pena ler, ouvir e ver o que disse D. Teodoro de Faria ao DIÁRIO. E se for necessário, admitir: que saudades de um bispo de que diz alguma coisa na Madeira! Eu, por mim, admito-o sem preconceito. E não me esqueço de algumas críticas que fiz ao actual Bispo Emérito.