Uma mesada pode ter muitos objetivos. Tanto pode servir para desenvolver capacidades e competências para planear, para tomar consciência que é preciso gerir equilíbrios, para responsabilizar e dar autonomia, etc., como para fazer precisamente o contrário… Se a mesada for encarada como um investimento é necessário perceber como se pode medir o retorno desse investimento. Os investimentos públicos no desporto não são mesadas, mas podem ter o mesmo tipo de objetivos. O governo deve fomentar e regular e não consumir-se a fiscalizar aspetos parcelares dos investimentos. Deve contratualizar e monitorizar os retornos (títulos, desportistas, espectadores, saúde, educação, turismo…) É necessária maior responsabilização e simultaneamente maior autonomia de todos os intervenientes no processo, ou seja, do governo, dos dirigentes, dos treinadores, dos desportistas, dos pais, dos funcionários, etc. A responsabilização e a autonomia exigem a capacidade de ter visão de conjunto e perceber que há tendências evolutivas contraditórias em algumas das opções que se tomam, ao nível da micro e da macro gestão. É necessário perceber que tudo tem um custo. A título de exemplo, se em vez de demorar 5 minutos no duche demorar 10, ao fim dum ano, isso pode equivaler ao preço de uma deslocação a uma competição; se estiver a utilizar uma instalação com 15 miúdos quando podiam estar 30, isso pode significar que alguns em vez de chegarem a casa às 21.30h cheguem às 23h; se utilizarmos uma passagem aérea com quem não merece, mais tarde poderá vir a fazer falta para quem a mereça… Contudo não se trata apenas de racionalizar custos, mas também de potenciar investimentos para captar receitas. É necessário que o produto desporto tenha qualidade para que se aceite pagar pelo seu usufruto. Desde há muito que o homem se confronta com o ciclo lavrar/semear/colher, na agricultura, na indústria, nos serviços, na educação, no desporto, etc. Mas alguns ainda não perceberam que um indivíduo ou uma sociedade para serem sustentáveis (e felizes) não podem falhar nenhum destes três aspectos em tudo o que fazem.
Hélder Lopes, Professor Universitário