A notícia chegou-me através de uma conversa frugal com alguns amigos que estiveram nas últimas semanas em determinado país do Norte da Europa em viagem profissional. Tiveram de encontrar-se com uns operadores turísticos e constataram que o representante do Turismo de Portugal em determinada cidade nem tinha disponibilidade financeira para comprar selos que lhe permitisse o envio de uma simples brochura do nosso País a alguém que a solicitasse. Noutro local verificaram que pelo menos dois dos nossos representantes andam normalmente de bicicleta, anormalmente de metropolitano, para chegarem às reuniões com entidades a quem procuram impressionar sobre as virtudes do destino turístico Portugal. No primeiro caso irão responder-me que através da Internet o solicitante obteria a brochura. No segundo caso, o parvo sou eu, porque não quero entender que temos de poupar e todos deverão sujeitar-se a sacrifícios. Na contra-resposta perco argumentos e calo-me, porque já entendi que me consideram o “maldizente” que só diz mal e não traz nada de construtivo ao debate. Um desbocado, um intriguista, que se entretém na arte de mal-dizer para ganhar audiência. E se para além de insidioso e inoportuno escrivão, não me colarem um rótulo qualquer… Voltando à conversa, a minha reacção foi de surpresa, quase hilariante, tal como a dos meus interlocutores que dizem até ter oferecido boleia de táxi, para chegarem juntos ao local. Mas é das tais ocasiões que a risada se afoga numa reflexão mais profunda e de contida tristeza: porque é esta a forma como se trabalha para promover Portugal no estrangeiro. São estes os meios?! Não defendo, por norma, as boas roupagens ou um melhor penteado (para quem tem cabelo, não seria o meu caso…), nem tão pouco um generoso decote (se bem que ajude muitas vezes…) para impressionar as pessoas que procuramos convencer acerca dos nossos atributos ou dos predicados de uma terra que está apta a receber turistas, que tem muitos motivos para merecer uma visita e que tem hotéis de qualidade e gentes hospitaleiras. Como em tudo, é necessário compostura, contenção e argumentos convincentes. É preciso agressividade na concorrência, um discurso dinâmico e conhecimento dos mercados. Isso penso que a maioria dos nossos representantes têm e não é por aí que estaremos mal representados. O que está em causa é a maneira como se quer ganhar esta batalha. Cortam-se as despesas, evita-se o investimento e desmotiva-se o pessoal. É esta a receita que o Turismo de Portugal, segue, na obediência cega a quem manda cortar de forma louca e esquizofrénica os custos mais elementares. Não me parece que tenha sido essa a atitude de outros países que, tal como nós, falharam na gestão dos dinheiros públicos ou que se viram atingidos, de uma maneira ou de outra pela crise que grassa na Europa. São países que precisam do turismo como nós: como pão para a boca. Por isso, têm cuidado e procuram não matar a “galinha dos ovos de ouro” logo à nascença. Desta forma o pinto nem vai chegar a frango… Entretanto, as camas nos hotéis continuam vazias, vemos os turistas passar para outros destinos. Para nos apaziguar a alma combalida pela decepção e pela incerteza, há alguns operadores que nos dão prémios, que dizem que os seus clientes gostam muitos dos nossos destinos e dos nossos hotéis. Depois vêm com a história de que tudo está mal e se quisermos receber mais turistas, teremos de vender quartos a 20 euros por noite. Será que isto é sina ou haverá forma de reverter a nosso favor? Que estratégia tem este País e esta Região Autónoma para o Turismo? Que esforço estamos a fazer, mesmo do ponto de vista orçamental, nos sectores público e privado, para nos afirmarmos nos mercados que nos interessam? As respostas chegarão de bicicleta… Hilariante! Há poucos dias li um artigo do Dr. Eduardo Jesus no nosso DIÁRIO sobre a actual situação do turismo regional. Gostei e partilho totalmente. Tem o condão de ser escrito por alguém conhecedor e que sente na carne os resultados da falta de tudo o que não se fez para que as coisas corressem melhor. Resultado das hesitações, das meias medidas, da falta de determinação de quem decide e da incompetência grassa de quem, cego no seu poder, esquece que vive numa terra pequenina que vai buscar ao turismo a maior fatia das suas receitas. Por não ser distante do poder admirei a franqueza do nosso colaborador, coisa rara nesta terra de agachados. Por ser empresário, também, surpreendeu-me o seu desassombro. Pois é, tal como dizia, precisamos saber como isto acontece. Há poucos dias um amigo que trabalha no aeroporto dizia-me que há cada vez mais aviões nos radares. Filas intermináveis, diariamente, para as Canárias e para Cabo Verde… E são voos ‘charters’, cheios de turistas, como gostaríamos que chegassem ao nosso arquipélago. A prosa pode parecer pessimista. Mas não sou… puxo no meu lado, faço o meu papel para que outros despertem e se juntem aos que pretendem mudar alguma coisa. Queremos chegar a tempo de não perder tudo, de retomar caminho e conciliar os elementos que estão desencontrados. Chamam a isso plano de estratégia? Que seja.