Um dia destes estive à conversa com alguns associados, todos ex-emigrantes com idades superiores à minha e com estabelecimentos na área da restauração. É quase inevitavelmente nestes últimos tempos quando falo com qualquer associado, independentemente da área de negócio, o tema de conversa foi o aumento de impostos e, no caso particular da restauração, do IVA, (Imposto que Vai para Alguém, como dizia um deles). Cada um apresentava o seu argumento para justificar a situação actual, sendo particularmente interessante a justificação dada por um deles, que dizia ter ficado muito admirado quando chegou à Madeira depois de alguns anos na Venezuela e verificou que no sítio onde morava já quase ninguém criava um porco, galinhas ou outros animais para consumo próprio. Tentou saber o porque desta situação e perguntou às pessoas porque não o faziam. A resposta era sempre a mesma: "não se tem, compra-se. Isto agora vem tudo de fora já pronto". Depois de ouvir várias vezes a mesma coisa, lembrou-se de uma frase que dizia a sua mãe quando chegava alguém a casa a oferecer algo estranho ou que normalmente não se oferece a ninguém. Dizia ela para os filhos "coisa boa pela porta só o Divino Espírito Santo! E só as bandeiras, porque os que as trazem …?". Concluía dizendo que estava convencido que a situação iria chegar a este ponto. Deixou-se de produzir o pouco que se podia, para comer tudo comprado. "E de onde vem o dinheiro?", pergunta. "Não se via que não era coisa boa o que esses senhores da Europa andavam para aí a oferecer? Não os conheço, mas está visto que "são daqueles que não metem prego sem estopa" Interveio um outro elemento do grupo para dizer: "Olha eu também tinha essa ideia e por isso não fui em loucuras, graças a Deus. Ainda planto batatas e semilhas, tenho galinhas e porco, e algum na carteira." De repente, o mais velho do grupo dá a sua opinião: "Bom, vocês estão admirados e a procissão ainda vai no adro". Nesta altura intervenho para dizer que espero que a procissão ainda esteja no adro sim mas já de regresso à igreja, porque se ainda está a sair e o meu amigo estiver certo no que diz a coisa pode ficar feia. "Vamos andar por cá para ver", concluiu o proprietário do estabelecimento para dar por concluída a bilhardice do dia.
Joel Freitas - Presidente da ACIN