A grave situação de crise e a incerteza face ao futuro obriga à reflexão sobre estas quase quatro décadas de Democracia e Autonomia. Entre a realidade nacional e a nossa situação regional são muitas as semelhanças. Por cá as responsabilidades políticas só podem ser atribuídas a uma força partidária sempre reeleita com esmagadoras maiorias absolutas; no resto do país houve alternância de dois partidos no poder. Mas com alternância ou sem ela, reconheça-se que as diferenças se esbatem na semelhança da praxis política a nível local, regional e nacional marcada em betão a granel, em anos de euforia gastadora dos milhões provenientes da adesão à União Europeia. Cá e lá. Trocou-se a agricultura e a pesca pela construção civil. Todos nos lembraremos do regozijo das autoridades regionais por uma cada vez menor percentagem de madeirenses estar envolvida naquilo que é a base de qualquer economia sustentável: as actividades do sector primário. Lá como cá recebeu-se subsídios para não produzir e importar, para abater barcos de pesca, num país com uma costa marítima de invejar, e uma tradição de actividades de mar que nos consagram na História dos povos! E ninguém se indignou. Ou foram poucos. A quase todos o El Dorado de Bruxelas (a da vaquinha, lembram-se?) e o fácil financiamento bancário seduziu. Se por cá tivemos obras - algumas inúteis - quase sempre em derrapagem financeira, sorvedouros de dinheiros públicos, mas fonte de receita para alguns, por lá o país confronta-se com -diz-se - seis auto-estradas a mais, rotundas de Norte a Sul, mais a polémica das SCUT e as dores com as ruinosas negociatas das PPPs, os principescamente pagos estudos para a construção de hipotéticos aeroportos, TGVs e outros quejandos, por pagar. E até em termos de endividamento encapotado, esse pecado venial madeirense, ei-lo agora a vir ao de cima nas câmaras e empresas públicas e a comprometer ainda maís o futuro de todos nós. Esta semelhança é, contudo, do mais natural que há. Afinal à data da descoberta, a Madeira apenas tinha loureiros, tis, barbuzanos e vinháticos, mais a luxuriante vegetação e respectiva fauna que hoje compõem a nossa consagrada Laurissilva; o elemento humano veio de lá com toda a sua carga genética, tendo por cá encontrado terreno fértil para o apuramento da espécie. Estude-se a História da nossa ilha e tudo se percebe. E exemplos de caciquismos, sectarismos, populismos, demagogia, manipulação de influências e eternização de personalidades e interesses privados no poder, também houve por lá! Também lá houve jovens que responderam a professores não lhes ser necessário fazer um curso, matar-se a estudar para conseguir um bom emprego, pois sendo membro da Jota A, B, ou C no poder, ou tendo um familiar próximo de estruturas partidárias de influência, essas agências de emprego (tacho?) espalhadas pelo país, como cá, não teriam problema em conseguir um lugar, na Câmara, Governo Civil ou qualquer outro organismo público. Muita da obra feita foi, reconheça-se, um leviano desperdiçar de dinheiros dos contribuintes, dinheiro que agora não há para a saúde, para a educação, para os salários, para os apoios sociais e para o necessário investimento público, criterioso e dinamizador da economia, que agoniza e hipoteca o futuro do país. Veja-se o que aconteceu em Janeiro com a dívida regional às farmácias, a situação das escolas que não podem fornecer refeições aos alunos, nos medicamentos que escasseiam nos hospitais, … Para não falar nos brados mais ou menos contidos, face à falta de financiamento no desporto. Eis-nos perante o cair do pano da louca folia destes últimos quase 40 anos de governação sob o signo da Autonomia, agora seriamente comprometida. Desapareceram algumas das especificidades regionais, a espuma de tanta reivindicação junto da Lisboa política de outros tempos. O discurso da continuidade territorial, da subsidiariedade, da solidariedade, dos roubos e garrotes foi substituído por uma total submissão às determinações do rectângulo, na substância e na qualidade, tudo a troco da negociação (ou imposição?) da necessária ajuda financeira, agora em tempos de total penúria. Com as questões financeiras sob a incumbência do IGCP, eis-nos agora governados a partir de Lisboa. A Autonomia acabou. Onde pára o discurso contra os "colonialistas de Lisboa"? Os que por não se renderem à obra feita ao longo da governação jardinista foram chamados de "tontos", "loucos", "traidores" e "energúmenos", bem cedo previram o que está a acontecer. Quem sempre descordou das imensas verbas derramadas sobre o desporto profissional, não estranha o clima actual de penúria em que algumas colectividades se encontram. Cabe aqui relembrar a discussão, em 2006, da Lei de Bases do Desporto e da diferença de custos por atleta no continente, nos Açores e na Madeira então apresentada. Consulte-se os registos em sede de Comissão Parlamentar na Assembleia da República. Acabou a festa e a pesada conta está a ser-nos rendida colectivamente. Culpados fomos todos nós. Foram culpados os que legitimaram políticas que a lucidez alertava serem suicidárias no médio e longo prazo. Foram culpados alguns eleitos discordantes, fragmentários, por não terem sabido unir-se contra uma hegemonia asfixiante. Foram culpados os que se demitiram de responsavelmente eleger mais vozes democráticas. Agora não adianta arrepelar cabelos. As consequências da leviandade ao votar pagam-se caro em moeda cidadã, em autonomia financeira e política perdida, em austeridade, empobrecimento e retrocesso social. A democracia cobra sempre a moeda da responsabilidade pelas condições do seu exercício, em dolorosa perda de liberdade e direitos. E como na retribuição da tragédia grega clássica, as consequências abatem-se por norma por todos, justos e pecadores. E não vale a pena o ar de "virgens ofendidas" com os remoques da governante de Berlim!

Júlia Caré