Muita coisa teria mudado se eu me lembrasse daquele dia. Porém dou por mim a puxar por ela. Não coexistiria a memória no auxílio da recordação. Rememorar seria para mim um mero vocábulo, denominado pela minha mente como uma palavra desconhecida, imposta por mundo concebido pelo Homem. Não se trata de inércia, mas sim desejo de tudo absorver, o centro e a periferia. Então, porque escrevo? Porque culpo os vocábulos, se os eternizo através de figuras pintadas? Esqueci-me! Sou um desmemoriado errante! Não me lembro do meu nome, porque esqueço-me incessantemente dele. Deixei-o à janela e ele fugiu. Então porque escrevo? Para rememorar? Impossível! Não tenho o contexto da produção destas letras impagáveis. Teria sido importante lembrar-me daquele dia, onde tudo se deu. Tentar lembrar é andar às escuras sem saber onde finda o início e começa o fim das coisas. Vou ao que penso ser uma janela, um corte numa parede fria e intransponível que rodeia o habitáculo do amnésico. "Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é", nem mesmo eu. Olho para o exterior, apaticamente, desconhecendo todo o movimento que abala o mundo. "Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu" aquele dia que me tornou num desconhecido a mim próprio. Aquele dia… Parece que sinto o cheiro verdejante nas curvas da mente inóspita. Perante esta cegueira prefiro ver o mundo desfocado, tiro os óculos, não dói, não se sente. É uma (des)memória que atordoa, mas sei que sou de Portugal, outrora grande terra. Não (re)conheço o meu país, não sei de que matéria é feito, não sei onde estou, de onde venho ou para onde vou. Não conheço o meu país e ele esqueceu-se de mim. Sou repleto de incertezas. Porém, duas incertezas correctas de dois seres metamorfoseiam-se numa única certeza, indubitavelmente, correcta e verdadeira. Mas apenas resto eu, uno e só. Vítima de uma amnésia rocambolesca que abalou o meu sentir humano. Esqueci o meu país e ele divorciou-se de mim. Sou órfão de mim e de Nação. A espécie de janela que dá para o mundo fechou-se, fez-se sombra e escuridão e o país esqueceu-se de mim. O dia em que transcendi para o infinito e passei a ser matéria inata. A janela define-me perante o exterior que desconhece quem sou. E quem sou eu? Não sei, esqueci-me… apenas sei que, ainda, sou português.

Fernanda Castro, Colaboradora AAUMa